quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Bib's - Zero Hora - 1994


Entre 1994 e 1997, no jornal gaúcho Zero Hora, apareceram as tiras de Bib's.

Embora tendo um fundo comercial consumista, Bib's logo cativou a atenção dos leitores, aumentando a paixão por esse chocolatinho recheado, de formato redondo. 


Fruto da criatividade de Eduardo Axelrud (1966) e do desenhista Regis Montagna (1968), Bib's acabou ganhando dois álbuns, de enorme sucesso na Feira do Livro de Porto Alegre, em 1994 e 1996. O pri­meiro, reunindo as tiras iniciais, chamou-se Bib's, o livro (Mercado Aberto). O segundo, editado pela Artes e Ofícios, ganhou como título Bib's, o outro livro


Apesar das limitações (Bib's é apenas uma bolinha negra), Axelrud e Montagna criaram uma verdadeira obra-prima no gênero, permanecendo na memória de todos até hoje.

Enciclopédia dos Quadrinhos - Goida e André Kleinert - L&PM - 2011

domingo, 17 de setembro de 2017

Arbustinho - Diário de S. Paulo - 1964


Trabalho de estreia do cartunista Edú (Eduardo Carlos Pereira), Arbustinho foi publicado no Diário de S. Paulo em 1964. 

O personagem, um garoto com cabeça de arbusto, aparecia semanalmente no Suplemento Feminino, embora, por um breve período, tenha sido veiculado diariamente junto com as outras tiras do jornal.


Na maioria das vezes em gags mudas e nonsense, seguia a linha de outras séries internacionais do diário como Carlão de Tom Kerr, Don Ramon (Pops) de George Wolfe e Victor do cartunista Mozo.


Sobre Edú sabemos que é o criador de personagens como o Praça Atrapalhado e o Dr. Estripa, publicados pela Editora Super Plá e Saber, de São Paulo. Também criou inúmeras capas para estas editoras, em títulos como Brucutú, Família Buscapé, e outros.

Nasceu em São paulo em 1947. Quando jovem lia O Tico-Tico e admirava Hal Foster, o criador do Príncipe Valente.


Sem um estudo formal de desenho, iniciou-se profissionalmente em 1964, aos 17 anos, nos Diários e Emissoras Associadas. Era chargista e lá criou seu primeiro personagem, O Arbustinho, em tiras semanais para o Diário de S. Paulo. Com o fechamento do jornal entrou para a editora Saber, dos irmãos Savério e Bértolo Fittipaldi. Era o ano de 1970 e estava com 23 anos.

Percebendo que o mercado carecia de material novo, nacional, criou o Dr. estripa e o Praça Atrapalhado que foram aceitos e gozaram de relativo sucesso, inclusive com revistas próprias. Em 1972, com 25 anos, outra criação sua teve uma edição única via Saber: Big Músculus, além da personagem A Bruxa, citados até hoje por profissionais da área como ótimas referências do quadrinho nacional no período.

A Bruxa, editora Super Plá.

Após a editora Saber, fez parte da equipe Disney na editora Abril, desenhando também material de Hanna e Barbera e Pantera Cor-de-Rosa.

Em 1973 idealizou o mascote da série Vagalume da editora Ática, o Luminoso. A coleção juvenil iria alcançar mais de 100 títulos e marcaria várias gerações nos anos seguintes. Luminoso passou a protagonizar histórias em quadrinhos nas orelhas dos livros onde repassava a sinopse da história em conversa com o leitor.

Participou também da revista Pancada da Editora Abril, uma revista nos moldes da Mad, em maio de 1978.

A partir de 1981 Edú criou seu próprio estúdio de design gráfico, o Lápis Mágico, em atividade até hoje.

Agradecimentos ao amigo Marcos Eduardo Massolini pela entrevista com Edú.







terça-feira, 12 de setembro de 2017

Caiçarinha - A Tribuna - 1968


Em maio de 1968 o jornal A Tribuna de Santos passou a publicar as tiras do Caiçarinha, criação de Maurício de Sousa. 

Como era um jornal do litoral paulista, a impressão que se tem é que o personagem foi desenvolvido especialmente para esse veículo. 


Aparentemente a iniciativa não deu resultado e a série foi descontinuada em pouquíssimo tempo, o que é uma pena, pois a tira prometia bastante em termos de humor e criatividade, apresentando as aventuras do Caiçarinha e seu companheiro, um caranguejo de nome Siri Cotico.



quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Guta - Capricho - 1987

Na década de 1980 a revista Capricho da editora Abril mudou sua linha editorial. Deixou para trás as fotonovelas e passou a ser uma revista de comportamento, moda e beleza dirigida ao público feminino jovem, adotando inclusive o slogan "a revista da gatinha".


Mirando esse público adolescente, o cartunista Miguel Paiva criou a personagem Guta, uma menina de dezessete anos às voltas com os dilemas das garotas da sua idade. Inicialmente a seção chamava-se Meu Diário, passando posteriormente a assumir o nome de sua personagem principal.

Abaixo uma entrevista concedida pelo artista à revista em Abril em 1987.

LINHA DIRETA COM MIGUEL PAIVA

Ele é um dos mais brilhantes desenhistas de humor deste país. Colabora com inúmeras revistas, entre elas Capricho. Neste bate-papo você finalmente vai conhe­cer o pai da Guta, que assina o seu divertido diário na nossa última página:

Capricho - Há quanto tempo você trabalha com cartum?

Miguel Paiva em O Cruzeiro - 1967

Miguel Paiva - Já faz vinte anos. Co­mecei muito cedo, com 17 anos, por volta de 1966, 67, colaborando no Jor­nal dos Sports do Rio de Janeiro. Foi a primeira vez que ganhei dinheiro por alguma coisa que fiz. Fiquei fascina­do. Logo percebi que não era um cartunista típico, mas um desenhista de humor, e que essa atividade estava as­sociada em mim a outras formas de expressão, como escrever para teatro e letras para música.

C - Você costuma trabalhar em casa?

MP - Sempre trabalhei em casa. Não sei o que é trabalhar fora e receber um hollerith no fim do mês. Tenho uma ligação muito forte com as coisas da casa, dos mó­veis à organização das tarefas e cuida­dos com os filhos. Em casa nunca houve aquele negócio de dizer "meu marido é muito bom, ele me ajuda muito". Minha mulher trabalha fora e nós dividimos tudo. Agora, é claro que o trabalho não pode ser prejudica­do. Em casa todos já se acostumaram a isso.

Jornal dos Sports - 1967

C - Quantos filhos você tem? 

MP - Três, Diego, de 11 anos, Adol­fo, de 9, e Vítor, de 4. Sempre quise­mos ter uma filha mas não pintou. Nossa relação com os meninos é tão forte, tão mágica, que não importa se eles são filhos ou filhas. 

C - Então a Guta é a filha que você não teve. Como é sua relação com ela? 

MP - E complicadíssima. Ela é real­mente a filha que eu gostaria de ter. Claro que não com essa idade, pois não sou tão velho assim. Eu gostaria de mostrar a Guta absolutamente li­bertária, fazendo o que bem entendes­se. Mas seria uma coisa irreal, porque as coisas não acontecem assim.

C - Fale dela ... 

MP - Ela sabe a crise que esta viven­do. Da dificuldade de romper com a estrutura antiga dos relacionamen­tos com os pais, namorado etc. Ao mesmo tempo se vê em ciladas tre­mendas, porque ainda não sabe quais os instrumentos que pode usar para conseguir o que deseja. Mas a Guta tem a capacidade de perceber o mundo em que pisa e eu espero que os jovens desenvolvam cada vez mais essa capacidade. 

C - O que o "pai" de uma adoles­cente espera dos jovens? 

MP - Olha, eu não espero nada. Não concordo com a responsabili­dade que querem jogar sobre as cos­tas deles. A responsabilidade do mundo que está aí é das gerações mais velhas. O jovem precisa se construir, viver essa coisa extrema­mente prazerosa que é a juventude, para mais tarde poder enfrentar os problemas do mundo.

C - Você largou os estudos antes de completar o segundo grau. Como sua família reagiu a isso?

MP - Nunca cultivei o mito do diploma. Abandonei o Clássico pela metade e não me arrependo. A fa­mília até que reagiu bem. Viram que eu estava tão determinado a seguir o caminho que escolhi, que acabaram me dando força. 

C - Não era a "rebeldia da juventu­de" de que falam? 

MP - Não, é claro que não. Existia um esforço meu em direção a um objetivo. E se há esse esforço é ine­vitável que se consiga o que quer. Com o incentivo dos pais fica mais fácil, e os meus perceberam que é bobagem querer programar a vida dos filhos. 

C - Como foi o adolescente Miguel Paiva? 

MP - Eu fui um adolescente com extremas dificuldades de expressão. Fazia análise, era gago. Um drama, porque sua sobrevivência nesta fase depende da sua capacidade de expressão. Acredito até que a minha necessidade de escrever, de dese­nhar, tenha vindo daí. 

C - Há uma enorme quantidade de rádios antigos espalhados por sua casa. E alguma espécie de paixão? 

MP - Sem dúvida. Malu, minha mu­lher, tem uma espécie de loja de an­tiguidades - um modernário - e numa de suas andanças achou esta coleção de rádios. São mais de 150 e a maioria funciona perfeitamente. 

C - De onde vem essa paixão? 

MP - Não sei ao certo, mas antiga­mente o rádio tinha uma força mui­to grande na vida das pessoas. Elas se sentavam em volta dele e o olhavam, imaginando as cenas que estavam sendo descritas. Por isso têm linhas tão bonitas. 

C - E O que você está achando do Brasil em tempos de Constituinte? 

MP - O Brasil, na realidade, são dois: o Brasil partidário, do Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre e Reci­fe, supostamente real, e um outro país, imenso, que morre de fome. A gente passa a vida inteira tentando se convencer de que esse outro país não existe. Mas a verdade é que nenhuma solução virá enquanto esse Brasil não for levado em conta.

Entrevista a Milton Belintani Filho
............................................................................................................

Sobre Miguel Paiva a Enciclopédia dos Quadrinhos de Goida e André Kleinert (L&PM - 2011) esclarece:

PAIVA, Miguel Brasil (1950) 

O carioca Miguel Paiva é mais um dos casos em que o artista primeiro se consagra no exterior para depois ganhar espaço maior aqui. Profissional do cartum desde os dezessete anos (publicou seus primeiros trabalhos no Jornal dos Sports), passou pelo O Pasquim (1969-1973), Última Hora e Sta­lus. 

Como a barra andava pesada naquela época, mudou-se para a Itália, mais particularmente Milão, onde permaneceu até 1983. Foi lá que criou a sua primeira série de quadrinhos, "Madame Mistério", publica da na revista Linus. 

O Casanova de Miguel Paiva.

Também participou da edição coletiva de As memórias de Casanova, ao lado de artistas de renome, como Guido Crepax, Dino Bataglia, Altan e Oski (publicada no Brasil pela coleção "Quadrinhos L&PM"). 

No seu re­tomo, passou a desenhar em tiras diárias, a partir  dos argumentos de Luis Femando Veríssimo, As aventuras de Ed Mort. Essas deram, em coletâneas formato álbum, quatro títulos - Procurando o Silva, Disneyworld Blues, Com a mão no milhão e Conexão nazista (todos igualmente da coleção "Quadrinhos L&PM"). Mantendo intensa atividade gráfica e de cartuns além da criação de quadrinhos, Miguel Paiva criou, para a revista isto É, as páginas semanais de Happy Days (crônica de uma família de classe média, empobrecida, que vai perdendo seus sonhos por causa dos contínuos pacotes e deteriorização do poder aquisitivo).  

Mais tarde, para a revista Domingo, do Jornal do Brasil,  criou Radical Chic, irônica e divertida sátira sobre uma típica mulher urbana de trinta anos (que se auto denomina, "sou um pupurri de emoções"). Radical Chic também ganhou álbum na coleção "Quadrinhos L&PM". Junto com Júlio José Chiavenatto, Miguel Paiva criou para a Editora Brasiliense, na série "Redescobrindo o Brasil", o álbum Olha lá o Brasil! Na Itália, as histórias de Ed Mort foram traduzi das em revistas e já ganharam um álbum. Paiva participou também das revistas Inter Quadrinhos e, principalmente Bundas (1999-2000). Nessa, criou mais dois personagens antológicos, Charlote, a emergente (quase quarenta páginas), e Betão, o futuro da nação (vinte páginas). 

Antes disso, tinha desenhado Gatão de meia idade, cujas tiras ganharam dois álbuns pela Editora Objetiva em 1995/96. Pela mesma editora saiu ainda em 1995, o Almanaque Radical Chic. Ainda dela tivemos o livro chamado Livro de pensamentos da Radical Chic (Penso, logo mudo de ideia!) editado pela Record, em 2001. Mais recentemente pela Cia. Editora Nacional, saíram mais três álbuns da Radical Chic e também três do Gatão de meia idade, inclusive um volume com as primeiras tiras do personagem. 

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Capitão Tarumã - Última Hora - 1964


Capitão Tarumã é um heroico caçador criado por Manoel Victor Filho. Suas tiras foram distribuídas pela Barbosa Lessa Produções e publicadas no jornal Última Hora em 1964 (e não 1963 como é comumente indicado). 

Em sua primeira aventura, Tarumã deve viajar à floresta amazônica para salvar seu amigo, o naturalista Bergman, com a ajuda de Vivian, a filha do mesmo e de seu fiel mordomo Jacá.


Sobre Tarumã, Ionaldo Cavalcanti escreveu: "Em 1963 (1964), Manovic (Manuel Victor Filho), hoje diretor da Escola Panamericana de Arte, criava esta série de aventuras para a Barbosa Lessa Produções. Capitão Tarumã era publicado em tiras diárias do jornal Última Hora em 1963".

O Mundo dos Quadrinhos - Edições Símbolo - 1977


Sobre Manoel Victor Filho, Goida e André Kleinert escreveram: "MANOEL VICTOR FILHOBrasil (1927-1995) - Pintor, ilustrador, capista e publicitário, Manoel Victor Filho (que às vezes assina Manovic) deu também a sua contribuição aos quadrinhos brasileiros. Trabalhando para a EBAL na década de 50, adaptou para a Edição Maravilhosa um romance de aventuras do pai, Os dramas da floresta virgem. 

Admo, revista Aventura e Ficção.

Mais tarde realizou, em tiras, para Barbosa Lessa Produções, Capitão Tarumã (1963). Em 1989, depois de muitos anos de ausência, ele reapareceu na revista Aventura e Ficção (Abril) com a bela história de ficção futurística, Admo, de argumento próprio.

Enciclopédia dos Quadrinhos – L&PM Editores - 2001

A técnica do desenho - Jayme Cortez - Editora Bentivegna - meados dos anos 1960.

Sobre Barbosa Lessa: "Sempre foi um sonho de quadrinistas brasileiros ver seu trabalho distribuído nos moldes das grandes agências distribuidoras americanas, os syndicates, como a King Features, a United Features ou o Chicago Tribune. No início dos anos 1960, coincidentemente, surgiram no Brasil duas tentativas de se fazer isso, a Maurício de Sousa Produções, que além do trabalho do próprio Maurício distribuía também O Gaúcho, de Júlio Shimamoto e Vizunga, de Flávio Colin. A Barbosa Lessa Produções Artísticas, distribuindo Gatinha Paulista, de José Delbó, Capitão Tarumã, de Manoel Victor Filho, Jacaré Mendonça e Amores Históricos de Rodolfo Zalla e ainda O Bandeirante de Luiz Saidenberg, sua última tentativa de permanecer nos quadrinhos.

Luiz Carlos Barbosa Lessa foi um importante produtor cultural muito ligado às tradições gaúchas. Folclorista, letrista, poeta, escritor, produtor e apresentador de TV, publicitário e relações públicas, foi também Secretário de Cultura de Porto Alegre e tem diversos livros publicados que versam sobre assuntos variados, desde a história do chimarrão a casos de marketing.

Ele escreveu todas as histórias de sua distribuidora, que durou de 1963 a 1964, sendo publicadas em jornais como Última Hora e O Diário Popular".

Revista Memo nº 3, setembro de 2013.

............................................................................................................

A matéria e a ilustração a seguir foram publicadas no livro “Comunicação pela Arte -8ª Série” de Ornaldo Fleitas - FTD - 1978

Manoel Victor Filho


Atualmente, diretor e professor da Escola Panamericana de Arte, o centro mais dinâmico para quem quer estudar ilustração e outras áreas das artes. É conhecido como ilustrador de HQ. 

- Manuel Victor, como se forma um desenhista?

Através de um método pedagógico adequado, onde a condição primordial é ensinar a ver, pensar e desenhar.

- Precisa ter vocação ou a gente pode se tornar um bom desenhista apenas com o esforço pessoal e uma boa orientação?

Toda a pessoa que segue a orientação pedagógica de nossa escola, tem condições naturais para aprender a desenhar.

- Com a sua experiência no campo do ensino do desenho, acha que há pessoas sem nenhuma inclinação para o desenho?

Há pessoas que desconhecem o seu próprio potencial; cabe à Escola fazer ver
este caminho, orientando-as, preparandoas, incentivando-as para que surja sua verdadeira inclinação artística.

- Na Panamericana de Arte, já se formaram desenhistas que no começo pareciam não ter nenhuma inclinação?

Não só se formaram, como muitos estão colocados profissionalmente.

- Num curso, durante as férias, acha que dá para ver se a gente tem ou não tem inclinação para a ilustração?

O período para definir na orientação vocacional depende de indivíduo para
indivíduo.

............................................................................................................

Manuel Vítor Filho

Manoel Victor de Azevedo Filho, (São Paulo, 9 de agosto de 1927 — São Paulo, 26 de março de 1995) foi um pintor, desenhista, ilustrador, cartunista e professor brasileiro filho de Manoel Victor de Azevedo e Emma Crivelente.

Biografia

Manoel Víctor, aos quinze anos, já havia decidido que sua vida profissional estaria ligada às artes. Por isso, ao invés de procurar um curso universitário como qualquer jovem de classe média, foi estudar nos Estados Unidos,já que no Brasil não existiam cursos para tal.

Lá chegando, matriculou-se na antiga e tradicional escola Art Students League of New York, a mesma onde anos antes fora frequentada por Anita Malfatti.

Entre vários professores de renome que ali lecionavam, escolheu a classe de Frank Riley, um dos mais afamados mestres da ilustração americana. Foi o primeiro ilustrador brasileiro a usar o óleo nos trabalhos de ilustração.
Também foi pioneiro em levar desenhos para a televisão esboçando-os ao vivo. Isto ocorreu em 1953 na TV Record de São Paulo, então uma emissora recém fundada por Paulo Machado de Carvalho, no programa infantil produzido por Eduardo Moreira. Foi grande o seu sucesso.

Foi ilustrador e Diretor de Arte na agência de publicidade CIN e sócio fundador da Escola Panamericana de Arte - EPA
https://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_V%C3%ADtor_Filho


............................................................................................................

A matéria abaixo foi publicada no jornal Correio Paulistano em 27 de dezembro de 1953.

MARAVILHAS DE UM LÁPIS NO MILAGRE DO VÍDEO

Macacos, bruxas e fadas no mais curioso programa infantil da televisão brasileira - A ilustração comercial entre nós - Manuel Vitor de Azevedo Filho, mestre de 25 anos.

Texto de FERNANDO CARDOSO DE MENEZES

Muito embora não se possa afirmar ainda que a televisão no Brasil tenha vencido plenamente, podemos reconhecer no entanto que em três anos de vida, registra ela um notável avanço técnico e artístico, oferecendo por vezes programas de alto nível estético, surpreendendo pelo arrojo da idéia, pela originalidade de sua apresentação e pelo expressivo conteúdo que encerram. São realizações honestas, que vencendo a fase primeira das tentativas e experiências, ficam no panorama artístico de nossa terra, ensinando lições de bom gosto, exemplos de capacidade criadora, e permanecem como ponto de referência para os críticos e roteiro de bons programas para o público que vê e aprecia televisão.

Muita coisa que a TV apresenta hoje como novidade, é o resultado de velhas idéias que o rádio já explorou e parou no ponto máximo de seu aproveitamento. Desse modo a TV se apresenta como a evolução lógica do rádio, que fez tudo o que se podia imaginar em materia de criação artística sonora. A TV como o rádio animado completa de forma admirável aquele soberbo espírito de profundidade que elevou aos Himalaias da arte a força fascinante e sugestiva da radiofonia.

Estas considerações foram inspiradas pelo programa que a TV - Record, canal 7, apresenta às segundas e quintas-feiras, no horário de 19 às 19:20h, considerado um dos mais perfeitos programas infantis da televisão brasileira, pelo ineditismo de sua concepção e pelo alto valor artístico que o consagra, como uma das belas e úteis realizações em favor do desenvolvimento mental da criança brasileira. Porque na verdade esse novo programa da TV - Record reúne todas as qualidades para se constituir num bom educativo infantil, considerados seus aspectos pedagógico, moral e artístico.

HISTÓRIA A 4 MÃOS

É uma produção de Eduardo Moreira que apresenta o jovem artista Manuel Vitor de Azevedo Filho, uma das mais vigorosas vocações da moderna geração de desenhistas brasileiros, movimentando com a firmeza do seu traço, as mais interessantes lendas da nossa literatura infantil. Reunidas diante da câmaras as crianças vão ouvindo as histórias do narrador, enquanto Manuel Vitor vai compondo “na hora” as flgurinhas mágicas que fazem o encanto da petizada.

Temos visto desenhistas de valor (e hoje existem muitos no Brasil) projetados pela imprensa e por concursos escolares e comerciais, mas o caso de Manuel Vitor merece uma referência especial pelo fato de ser o primeiro artista do gênero a criar na televisão um programa dessa natureza, cuja dificuldade não está logicamente na criação das figuras, mas na raplidez e perfeição com que são executadas, naquele turbllhão de luzes e vozes, naquela maravilhosa alacridade que só o mundo infantil possue, buliçoso e puro como a própria alma das crianças.

Enquanto acompanhávamos as sequencias do programa num canto do estúdio, o telefone trazia de todos os cantos da cidade os mais engraçados pedidos, que M. Vítor Filho vai atendendo com aquela admirável compreensão da alma infantil caraterística báslca de todos aqueles que se dedicam a educação da infância, sejam quais forem os veículos colocados ao seu alcance. Depois de feito o macaco, corre um garotinho do fundo do estúdio e pede para colocar um chapéuzinho; logo mais vem a menina de tranças e exige óculos de tartaruga, depois o macaquiuho deve andar de bicicleta e assim por diante... Imaginem os leitores o malabarismo que deve fazer o artista para não desapontar esses fãs de verdade, os mais adoráveis tele-espectadores do mundo...

HISTÓRIA DE UMA VOCAÇÃO

Logo depois que o locutor anunciou o término do programa, com oooooooh! geral da petizada, conversamos com Manuel Vitor de Azevedo Filho, que lembrando pedaços de sua carreira, e abordando de um modo geral as várias modalidades do desenho entre nós, assim se manifestou:

- “No Brasil ainda não temos escolas especializadas de ilustração comercial, como existem nos Estados Unidos, por exemplo. Penso que se deveria fazer alguma coisa por essa arte, já que em nosso meio os ilustradores caminham quase que a parte dos demais artistas. Por essa razão justamente não desfruta a classe a consideração devida ao seu valor, desaparecendo muitas vezes no turbilhão dessa injustiça, trabalhos que muito serviriam para elevar o nome da arte brasileira, o valor dos nossos profissionais e o padrão das nossas criações. Já conseguimos a custa de ingentes esforços uma posição de respeito no cenário artístico internacional, com as mais expressivas mostras de uma capacidade que se não atingiu ainda o nível de perfeição desejada, em ponto algum desmerece as nossas realizações. Assim sou entusiasta de um movimento no sentido de se criar um melhor entendimento, um clima de maior boa vontade para melhor se apreciar e valorizar os profissionais dessa especialidade.

“Gostaria de lembrar - prossegue Manuel Vitor Filho - a experiência que tive nos Estados Unidos, como aluno da “Art Studients League”, onde pelo espaço de dois anos mantive contato com os maiores nomes da ilustração comercial de nosso tempo, como Norman Rockwell, da Revista “Post”. Considerado um dos maiores do país, tendo seus trabalhos no Museu Americano, autor de obras de extraordinário mérito, como a campanha do “Freedom of Speak”, desenvolvida durante a última guerra. Além disso é tal o número de profissionais e tão profundo o conceito em que são tidos, que existem vários sindicatos para defesa dos seus interesses e propugnação dos seus ideais. Entre nós grupos esparsos realizam tentativas para a criação desse espírito, como a Associação Paulista de Desenho, cujo trabalho em favor desse objetivo deve merecer apoio decidido de todos nós.

Alex Raymond, autor do Flash Gordon, Milton Caniff, Al Capp e muitos outros, além do renome internacional que grangearam com suas geniais produções, tornaram-se também milionários, o que reflete ainda uma vez a situação desses artistas do lápis no fabuloso país dos dólares”.

- Voltando ao programa, desejamos consignar a nossa satisfação pela linha de programação da TV - Record, canal 7, pelo prestígio que empresta ao programa em apreço, considerando a importância da televisão para o ensino e formação moral das crianças, atraídas hoje pelas mais deleterias influências, pelos mais corrosivos dissolventes que a ignorância de uns e a má fé de outros, apresentam todos os dias, como “agradáveis passatempos infantis”.
Manuel Vitor de Azevedo Filho, pioneiro do desenho infantil na televisão brasileira, já desenhou para a N.B.C.. de Nova York, trabalhos apresentados em forma de “slides’” ou seja, figuras fixas, mas de grande efeito visual e repercussão artística. Na Rádio Tupi de São Paulo reeditou os êxitos obtidos nos Estados Unidos, com a sua admirável e curiosa técnica, ilustrando na mesma emissora as aulas de inglês de Mr. Pip, outra realização cultural que muito bem define a honestidade de uma vocação e o roteiro de trabalho de um talentoso artista do desenho.

Agradecimentos ao amigo Francisco Dourado pela dica da matéria acima.

domingo, 3 de setembro de 2017

Roque Corvo - A Tribuna - 1968


Em 1960 o jornal A Tribuna de Santos lançou seu suplemento infantil, A Tribuninha, veiculado às segundas-feiras. 

Em 1968 passou a publicar Roque Corvo, um detetive aventureiro na linha de Jim das Selvas resolvendo casos mistériosos pelo mundo. Criado pelo cartunista Escandon era publicado semanalmente nesse mesmo suplemento.




quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Tinoco, o caçador de feras - O Tico-Tico - 1936


Tinoco é um caçador que narra suas aventuras, mas são tão mirabolantes que dificilmente alguém acredita nelas. Criadas pelo cartunista Théo, forma publicadas em O Tico-Tico a partir de 1936.


Sobre Tinoco, foi escrito: 

"TINOCO, O CAÇADOR DE FERAS

Personagem humorístico criado por Théo em 1936, depois de ter lançado Chico Farófia. Com histórias completas de uma página, este engraçado caçador aparecia na revista O Tico-Tico, da editora O Malho".
O Mundo dos Quadrinhos - Ionaldo Cavalcanti - Ed. Símbolo - 1977


E sobre Théo:

"THÉO 

Brasil (1901-1980) 
Théo foi o pseudônimo que o cartunista, caricatu­rista e jornalista Djalma Pires Ferreira, nascido em Salvador, Bahia, em 2 de julho, utilizou durante toda a sua carreira. Suas primeiras charges, reme­tidas ainda de Salvador, saíram no periódico humo­ristico de Bastos Tigre, D. Quixote. Transferindo-se para o Rio, em 1922, Théo reuniu, ao longo de várias décadas, colaboração em jornais e revistas: 
O Malho, O Globo, Jornal do Brasil, Careta, A Nação, Gazeta, de São Paulo, A Noite, Vamos Ler, Revista da Semana e A Cigarra. Sua mais conhecida criação, a Bola do dia, foi publica pelo O Globo por mais de trinta anos. Nos quadrinhos, principalmente na década de 30, Théo tomou-se muito conhecido entre os leitores de O Tico-Tico. Primeiro ele criou Chico Farofia (1934). Depois, uma versão cabocla do Tartarin de Tarascon, Ti­noco, caçador de feras (1938), que o popularizou ainda mais como desenhista de quadrinhos. Seus bonecos eram feitos com poucos traços, mas estilo moderno e expressividade ótima". 

Enciclopédia dos Quadrinhos - Goida / André Kleinert - Ed. L&PM - 2011

Théo na revista Vamos Ler - 1942


Ademar de Barros por Théo, Diário Popular - 1964

terça-feira, 29 de agosto de 2017

André LeBlanc - Entrevista - 1998

Esta entrevista foi publicada no site Spaccatutto. Como não está mais disponível, republico para que todos possam ler. Ela trata basicamente da carreira internacional de LeBlanc, mas serve como complemento àquela publicada anteriormente, retirada de O Pasquim de 1972, e que pode ser lida aqui.

LEBLANC, O FANTASMA DO FANTASMA

entrevista a Ed Rhoades 
©1998 Ed Rhoades 

Entrevista de André LeBlanc a Ed Rhoades, editor de "Amigos do Fantasma" (Friends of The Phantom) - traduzido por Spacca (colaboraram Marcelo Campos, da Fábrica de Quadrinhos; o ilustrador Pepe Casals e o próprio Ed Rhoades). 

ADF - Você encontrou Dan Barry no estúdio de Jack Binder, e mais tarde ele o chamou para trabalhar em Flash Gordon? 

LB - Eu não via Dan desde que trabalhamos juntos no estúdio de Binder, e ele morava num hotel muito chique entre as ruas 57 e 59, quando me ligou. 

ADF - Você na verdade ganhou um "byline" (reconhecimento oficial do nome do artista assistente, escrito na tira junto ao do titular) para trabalhar em Flash Gordon... Não era bom? 

LB - Sim, isso era bom da parte dele. Era a segunda ou terceira vez que me chamava. Estivemos juntos nisso outras vezes... A primeira vez foi em 1957, quando ele estava planejando voltar para a Europa. E em algum momento de 1958 ele me ofereceu... naquele tempo, Flash Gordon estava no auge. Até há pouco, Flash vinha sendo feito por Alex Raymond, até que ele se matou num acidente de automóvel (1956). Raymond estava entre os melhores desenhistas que eu jamais vi. Considero-o ainda melhor que Hal Foster. 

ADF - Flash passou de Alex Raymond para Dan Barry.

LB - Ele se matou naquele trabalho. Eu tenho algumas daquelas primeiras tiras. Ele deu um passo maior do que as pernas (nota: "big boots to fill" no original - a dificuldade de corresponder à expectativa de igualar um antecessor com grande reputação). Ele lutou, quero dizer, ele realmente deu duro naquela tira, com amor, dedicação e trabalho árduo. Então, descobriu que podia economizar um bocado de dinheiro com impostos. A tira pagava extremamente bem... se você fosse à Europa, passasse uns 18 meses lá e voltasse depois, tinha um abatimento nas suas taxas americanas que eram muito altas nos anos 50. Entre outras coisas, ele disse "André,  tenho um negócio para você, venha comigo para a Europa e vai ser muito bom para nós, vamos produzir essa tira", e me ofereceu um salário muito bom naqueles dias, 250 dólares por semana. Ele ficou com 70%... algo em torno disso. E eu disse, droga, sou um homem casado. Ele disse, "traga a sua esposa junto". Ele ia viver em Kitzbühel nos Alpes Austríacos. Eu disse "Dan, meus amigos estão aqui, meu trabalho está aqui, minha mulher... ". Então ele convidou Rick Estrada e Rick topou.

ADF - Então com Dan na Europa, você não podia mais trabalhar com Flash Gordon?

LB - Não, mas nesse meio-tempo, parece que ele deu meu nome e endereço para Sy Barry. Então Sy entrou em contato comigo. Só o conhecia de vista. Mas quando me chamou para ajudá-Io, ele tinha um bom trabalho para fazermos. Era um gibi sobre Rosa Parks (*ativista negra que foi presa em 1955 no Alabama, por recusar-se a ceder o assento a um homem branco num ônibus). Umas 64 páginas de quadrinhos. Aí me chamaram para uma outra coisa qualquer... você sabe, há sempre portas se abrindo. Foi quando trabalhei com Lee Ames (autor de uma famosa série de livros didáticos de desenho, "Draw 50"). Nós trabalhávamos para a MacMillan ilustrando textos infantis. E aquilo pagava melhor que qualquer gibi. 

ADF - Eu vi aquele livro do George Washington.

LB - Eu fiz o livro inteiro, mas saiu com o nome de Lee Ames, porque ele tinha assinado o contrato. Ele me disse "estou apertado, estou fazendo um trampo para a MacMillan e me deram um prazo final. Você me ajuda?" Então eu fiz, mas o contrato estava em nome do Lee. Fiz, porque ele tinha sido um amigão arranjando esse trabalho tremendo na MacMillan, pagando a fabulosa soma de 10 mil dólares por ano. Era uma fábula em 57... De qualquer forma, depois fiquei com a sua agente, Mary Gerard. Ela era bem conhecida... uma boa agente. Eu nunca poderia tê-Ia contratado sozinho, mas como Lee a estava deixando, ela disse "vou ficar com você no lugar dele e faremos o mesmo trabalho". Lee trocou a MacMillan pela Doubleday e eu fiz freelances para a MacMillan... Trabalhei para Allan e Bacon. 

LeBlanc em A Cigarra - 1946

Em 1969, voltei ao Brasil. Ela estava em um cruzeiro com seu marido e era sua lua-de-mel. Eles vieram ao Rio e eu os recebi em minha casa (naquele tempo Le Blanc tinha uma incrível mansão no Rio). Mas naquele tempo eu estava preocupado com meus fílhos sua educação. Eu queria que eles aprendessem inglês... essa é a linguagem do mundo, a linguagem dos negócios, a linguagem da arte, a linguagem da literatura. Os japoneses falam inglês, até os alemães falam inglês. Eles estavam aprendendo português... uma língua indecifrável ("an arcane language"), inferior ao espanhol na opinião de muita gente. Então voltamos aos Estados Unidos. Quando nós voltamos Vivian veio conosco, mas Francis ficou por um tempo porque ela estava na universidade. Eu voltei em 1969 ou 70. 

ADF - Foi quando você fez a Bíblia?

LB - Eu fiz a Bíblia nos anos 60 (The Picture Bible, David C. Cook).

ADF - Você foi à Terra Santa?

LB - Fiz duas viagens à Terra Santa. Uma vez sozinho e outra com a família. Tomamos um cruzeiro e paramos em todos aqueles lugares da Terra Santa, e eu aproveitei a oportunidade. Deixei a família em Tel Avive fui a Jerusalém, a Jericó. 

ADF - Você fotografou ou fez desenhos? 

LB - Principalmente desenhos... Tirei algumas fotos, as pessoas usavam roupas pesadas, sujas, em preto, cinza e branco sujo, mas nós vestíamos cores vivas. Você não é notado, se parar na rua e ficar desenhando. Nos países islâmicos, se você pára e tira fotografias, você é suspeito... especialmente se há mulheres na multidão. Israel é uma sociedade secular (leiga, não-religiosa) e quando você vai a outros lugares, você se sente um estrangeiro, e você é de fato um estrangeiro. 

ADF - Quando você trabalhou na Bíblia?

A Bíblia de LeBlanc.

LB - Trabalhei na Bíblia antes de fazer Rex Morgan (tira criada em 1945 por Marvin Bradleye Frank Edgington, sobre um psiquiatra - LeBlanc trabalhou nisso nos 60). 

O que aparece no livro não é tudo. O material foi comprimido depois para se adaptar ao formato... havia coisa boa, poética. Tive um trabalhão para ilustrar os Cânticos de Salomão. Publicaram uma Bíblia de 900 páginas. Eu colori mil... Tinha umas mil e duzentas, mil e trezentas páginas, mas tiveram que comprimir.

ADF - Você tem os originais?

LB - Estou tentando ter de volta. Consegui recuperar alguns.

ADF - Quanto tempo você trabalhou nisso?

LB - Seis anos. A razão porque eu não tinha direitos foi porque eu não assinei um contrato para fazer o livro. Eu era contratado só pelo trabalho, como fazemos com quadrinhos hoje (no original: "I worked for hire", é um free-Iance sem direito autoral, no qual os direitos e a propriedade do trabalho são transferidos para o contratante). Não havia direitos para quadrinhos tampouco. Você pegava o trabalho, nada mais; aquilo era deles.

ADF - Seu trabalho bíblico saiu nos jornais?

LB - Sim, no mundo todo. O que eu fazia era um pequeno jornal dominical que eles estavam experimentando (nota: o editor desse pequeno jornal dominical era David C. Cook, hoje um enorme editor de Bíblias e material educativo apostólico nos EUA - Christian EdWarehouse).

O FANTASMA DO FANTASMA

ADF - Conte-me sobre o Fantasma.

LB - Bem, trabalhei no Fantasma com Sy Barry; ele é um cujo nome aparece no Fantasma. Eu o ajudei na pintura e fiz o lápis por sete anos, mas a tira é de fato de Sy Barry. Ele é o artista de verdade. Seu nome aparece na tira todo o tempo. Eu o ajudei nisso, mas nunca foi minha tira.

ADF - Quando começou a trabalhar com Sy na tira, oque você começou fazendo?

LB - Eu entrei com o prazo estourando. Alguém estava trabalhando com ele...

ADF - Acho que era George Olesen, que foi chamado para fazer arte publicitária.

LB - Deve ter sido isso. Havíamos trabalhado juntos antes, então ele já me conhecia. Alguém tinha me dito que Sy Barry estava tentando me encontrar, mas nossos caminhos não se cruzavam. Finalmente ele conseguiu meu telefone, e eu tinha acabado de chegar do Brasil. Da primeira história não me recordo, porque foi uma fase tão frenética e sem descanso, a gente tinha que correr e eu tinha que fazer as tiras fora de ordem. Ele estava trabalhando nisto, aí precisava daquilo... "Você pode deixar começado para que eu continuar depois"? 

ADF - Você fez o lápis nos anos 60?

LB - Ah, sim, no fim dos 60 e 70, eu fiz o lápis. Fiz a série inteira do Casamento do Fantasma (1977-78). No Brasil, publicaram a coisa toda num só álbum. Ficou muito bom. Eu gostei de fazer aquilo. Todos dizem que uma das seqüências mais bonitas é quando ele pede a mão dela e eles ficam naquela fase em que ele não está seguro e ela não está segura... deverão fazer ou não? Eu me diverti muito fazendo aquilo.

O casamento do Fantasma.

ADF - Você fez as tiras diárias e as dominicais da sequencia do casamento?

LB - Toda a série... aquela coisa deles irem passar a lua-de-mel na pequena cabana de jade... cavalgar os golfinhos... Você sabe, pouco antes disso... a série realmente começou quando os caçadores foram lá caçar animais e isso era contra a lei do Fantasma. Toda aquela série estava amarrada como um preâmbulo para o casamento.

ADF - Você sabia que o parlamento da Nova Zelândia suspendeu as atividades para debater se Diana devia continuar trabalhando ou morar na Caverna da Caveira? 

LB - Isso é verdade? Ela estava trabalhando nas Nações Unidas naquele tempo. Sabe o que eu li uma vez na Time? Que nas ilhas do sul do Pacífico, o Fantasma é uma figura lendária de tal modo que o governo, quando quer que o povo faça alguma coisa, por exemplo, numa campanha como "O Fantasma diz: comam mais amendoins". Se eles querem dar um recado importante, eles usam o Fantasma. É a coisa mais fantástica. Faz dez anos que tenho esse recorte. 

ADF - Na Suécia tem um parque de diversões temático do Fantasma.

LB - Sim, ele é muito popular na Suécia. Eu tenho alguns exemplares com trabalho meu enviado por alguém da Suécia.

ADF - Então você começou no Fantasma fazendo o lápis...

LB - Sempre foi lápis, mais tarde fiz um pouco da tinta, mas no começo era só o lápis. O trabalho de Olesen era o layout e o desenho. Acho que o primeiro trabalho tinha a ver com uma princesa - eu lhe dei alguns desenhos de um cara com uma espada - e umas pessoas transformadas em estátuas, e havia um jarro com um certo perfume que as pessoas cheiravam e desmaiavam ... e ela tinha trazido essas pessoas e o Fantasma estava entre elas. Nesse ponto eu ia começar a desenhar e dizer, "veja, está acontecendo isto: tem uma cara na arena com uma espada, e tem outro com um escravo atrás... ele tem que se defender mas não quer matar ninguém, então ele aponta a espada para as pessoas em volta dele". E havia várias estátuas que eram pessoas de verdade e essa rainha - eu lhe dei um desenho dela - e o Fantasma na arena com uma espada. Acho que o trabalho ficou bom, apesar que eu nunca soube sobre o que era a história (risadas).


LeBlanc ilustra O Guarani - Ebal -1954

ADF - Meu palpite é que era por volta de 1972.

LB - Deve ter sido por aí.

ADF - Então você começou e fez alguns clássicos...

LB - Sempre teve interrupções, eu entrava e saía. Eu tinha minhas próprias obrigações naquele tempo... não quadrinhos, mas ilustrações, livros. Eu ainda estava trabalhando com David C. Cook fazendo ilustrações bíblicas. Depois que terminei a Bíblia, tive um acordo com ele para continuar com o trabalho dominical escolar, ilustrações e revistas. 

Naquele tempo, eu estava pronto para entrar de cabeça e ajudar Sy em tempo integral. Mas mesmo quando eu estava fazendo o lápis em "O Guardião das Trevas Orientais", no "Casamento" e tudo aquilo, eu sempre estive fazendo outras coisas. Eu tinha que achar tempo para trabalhar para mim e para Sy. Era uma época bastante cheia.

ADF - Ao contrário de muitas tiras, o Fantasma nunca entrou em férias... Era quando Sy contava com você para cobrir as férias dele?

LB - Com muita freqüência, porque eu tinha me tornado um substituto confiável. Quando ele precisava se ausentar, eu tinha que atrasar meu próprio trabalho, que punha de lado para ajudá-Io naquilo, porque eu conhecia a pressão. Eu fazia isso porque era seu amigo... você faz essas coisas... 
Ele dizia, "André, alguma coisa está acontecendo com a família, eles estão todos juntos e eu tenho que tirar uma semana. Preciso que você faça uma semana de Fantasma." Eu respondia "claro" e mergulhava naquilo e tentava combinar com tudo que tinha sido feito antes. Eu sempre fui meio camaleão... Sempre consegui pegar o bonde andando e igualar a técnica de alguém quando tinha que fazer isso... como quando você faz a minha assinatura e me faz crer que, se assinasse um cheque meu, iria passar.

Sy e eu trabalhamos em várias coisas antes e o vínculo estava lá, a comunicação estava lá.

ADF - Você ficou nesse entra e sai com Sy até o afastamento dele?

LB - Até exatamente quando ele parou... na fase do seu retiro, nós trabalhamos juntos.

ADF - Nesse ponto George Olesen tinha voltado e você estava retocando o lápis (tightening pencils)? 

LB - Não sei quando George Olesen voltou. Eu sei que teve um tempo em que eu fazia a coisa toda, layouts, planejamento (breakdown) e tudo e teve um tempo em que ele me chamaria para só corrigir o traço final a lápis (tight pencil). 

ADF - Layouts ou brekdowns são diferentes de "tight pencils"?

LB - O material de Olesen tinha o layout e a caracterização corretas, mas você não podia simplesmente passar o nanquim direto. Havia coisas como perspectiva... pequenos detalhes que iriam ficar muito evidentes quando se passasse a tinta, mas que não pareciam tão ruins enquanto estavam em fase de esboço (rough). Havia áreas que estavam perfeitas, mas no quadro seguinte havia um problema que você tinha que passar a borracha. Sy era tão meticuloso e perfeccionista que ele limpava o traço em tudo. O maior elogio que tive de Sy foi quando estávamos fazendo "O Casamento do Fantasma". Ele disse "André, eu posso sentar e passar o nanquim direto, sem tocar no lápis". Fui lá uma vez, não a trabalho, e ele e Joe Giella estavam numa correria, e o mensageiro já esperando para levar o trabalho. Sy e Joe estavam em pranchetas separadas, trabalhando furiosamente em cima dos sketches brutos de George Olesen, que eram pouco mais do que um esboço.

ADF - O que Joe fazia era principalmente nanquim?

LB - Quando eu vi, era o que ele fazia... e era soberbo, por sinal... soberbo. O nanquim de Joe Giella era de alta qualidade.

ADF - Eu percebi diferenças quando você fazia o lápis ou só fazia o acabamento. O Fantasma era um pouco mais alto e magro.

LB - Sim percebi isso também. George tinha a tendência de fazer o Fantasma mais largo e com as mãos maiores. E Sy sempre mantinha especialmente as mãos e os braços em proporção... os bíceps e coisas do tipo.

CRIANÇAS E ARQUÉTIPOS

ADF - Percebi que o traço dos vilões se manteve inalterado no trabalho de George.

LB - Sim, ele fazia vilões muito bem. Ele dominava a linguagem muito bem. Depois vieram as crianças (os filhos do Fantasma), crianças são um tema particularmente sensível. Quando trabalha com crianças, você tem que se livrar de todas as noções pré-concebidas. Algumas dessas mulheres artistas, ilustradoras de revistas de moda, fazem crianças lindamente. Você pode pegar dicas com elas. Elas sabem exatamente o que deixar de fora. Quando você faz estas coisas, é para um grande público... você quer que elas sejam o mais adoráveis possível. Uma criança de dois ou três anos deve parecer engraçadinha, e uma mulher deve ser bonita, a menos que você deliberadamente queira desenhar uma bruxa velha com uma verruga no nariz... Se você está desenhando uma mulher comum, ela tem que ter proporções harmoniosas, uma boca delicada, um pequeno nariz e grandes olhos. Você pode variar as proporções, mas elas têm que seguir basicamente aquelas linhas que tornam uma mulher atraente, que a façam parecer uma heroína. Hollywood faz isso o tempo todo. Somos todos influenciados por Hol!ywood e nossa expectativas são totalmente Hollywood... como o herói bonitão deve ser, dizer e fazer e a bela heroína. As palavras "bela" e "heroína" são quase inseparáveis, assim como "bonitão" e "herói". O herói feio, a heroína "tábua"? Eles nunca fazem isso. Os quadrinhos estão reduzindo tudo ao elementar... a um grupo de arquétipos. A mulher é representada como Beleza, e o homem como Força e Justiça. Estes são arquétipos, então você não pode ter um arquétipo com uma cara medíocre. Você tem que ter uma queixada forte num rosto bonito, você busca isso... inconscientemente, mas busca... você tem que fazer isso.

ADF - Você é especialista em animais?

LeBlanc ilustra Monteiro Lobato - A chave do tamanho - Ed. Brasiliense - 1969

LB - Sim, toda a minha vida eu sempre amei os animais e quis observá-Ios e tentar entendê-Ios. Tenho um instinto especial para cavalos. Quando era bem jovem, eu aprendi sozinho a cavalgar. Comprei um livro com técnicas sobre como controlar um cavalo. Amo cavalos e amo desenhar cavalos.

ADF - Você contribui para manter os animais nativos em suas respectivas regiões...

LB - Eu tinha naturalmente a esperança de sempre satisfazer os puristas que lessem a tira, para que não encontrassem nenhum erro nela. Vacas africanas são diferentes das vacas da América. Nossas vacas são suíças e italianas... vacas européias. Na África, as vacas têm chifres retos, de quase um metro de comprimento (gado Ankole... semelhante ao Zebu indiano). Os caras que fazem quadrinhos não se dão ao trabalho de pesquisar. Para muitos, uma vaca é uma vaca. Eles nunca viram outra vaca a não ser aquela com grandes úberes. Nós só conhecemos vacas leiteiras, não conhecemos o gado genérico que existe em lugares longínquos. No Vietnam, se você quer mostrar o gado, você tem que desenhar búfalos. Na África, há um tipo distinto. A vaca européia não vinga nesses climas. Elas são muito delicadas, precisam de muita comida, antibióticos, precisam muito de tudo. Elas são um produto da nossa civilização.

ADF - Você tem um arquivo?

LB - Tenho um arquivo razoável, serve para mim. Posso encontrar barcos, edifícios, tigres, leões, baleias, golfinhos e coisas menos exóticas. Posso achar um caderno inteiro com retratos de animais sentados, correndo. Se eu preciso de leões, não agressivos, mas sentados calmamente, posso encontrar leões apenas sentados ou parados. 

Você tem que ter um bom arquivo. Você deve possuir um bom arquivo de pessoas também. Eu tenho tudo, de todas as fontes. Você se descobre o tempo todo analisando, "onde tem uma coisa boa neste jornal?". Você encontra um tipo com uma barba interessante, ou um jeito interessante nas curvas dos cabelos vistos por trás. Este é um problema freqüente, você precisa de uma visão de trás e o sujeito tem cabelo ondulado. Como é que termina na nuca, ele enrola ou termina recortado? Por isso eu tenho um arquivo. Se você vê uma foto incomum de uma pessoa primitiva numa selva fazendo algo típico, são coisas como essas que eu tenho em meu arquivo. Tenha um arquivo, é o que eu sempre digo aos meus alunos.

O AMIGO DO REI

ADF - Você viveu algumas aventuras viajando...

LB - É uma questão de como sopra o vento em certos dias. Nunca podemos prever os acontecimentos, coisas realmente bizarras ocorrem além do seu controle. Eu estava num navio indo de Havana ao Rio de Janeiro. Era uma "nau dos loucos", meu amigo, Dr. De Tomasi e sua mulher estavam indo construir uma fábrica da Bausch & Lomb (nota: fabricante de lentes), que na verdade era uma fachada para um projeto militar secreto. Eles foram e construíram a fábrica e depois usaram parte dela para produzir armamentos.

Foi uma longa viagem e levou 27 dias para chegar. A bordo desse navio... por sinal, era um navio argentino que havia sido tomado dos vasos de uma esquadra francesa que tinha ficado presa na guerra em Buenos Aires. E os argentinos estavam usando esses navios para não enferrujarem e simplesmente se perderem. Então eles trocaram o nome para "Rio Tunuyam". A bordo desse navio, sem saber... como eu poderia supor, nos meus sonhos mais delirantes, que estaria o rei Carol da Romênia, que tinha fugido dos nazistas com a amante, Madame Lupescu! Havia dois enormes Cadillacs no compartimento de cargas, e diziam que havia ainda dez barris de moedas de ouro que ele conseguiu pegar pouco antes de fugir com Madame Lupescu, 40 baús de roupas e 10 cães que tinham que passear todos os dias. Era uma situação bizarra. (nota: Carol ll fugiu da Romênia após sua abdicação em setembro de 1940, levando consigo sua amante Magda Lupescu, de origem judia. Eles se casaram no Rio em 1947 e ela recebeu o título de Princesa Elena.) 


Eu estava ainda fazendo a minha tira "Intellectual Amos" e todo dia a bordo, o que não era tão difícil, eu procurava um lugar quieto no deck superior, sentava, punha a minha prancheta e trabalhava na tira. Eu tinha uma pilha de histórias que ia despachar quando chegássemos ao Rio. Então, lá vinha o rei Carol fazendo seu exercício matinal, não "jogging", apenas caminhando pelo deck e então ele me vê desenhando... ele se sentou perto de mim e começou a perguntar sobre a tira, sobre desenho, pintura. Ele tinha um primo que gostava de desenhar... ficamos assim, jogando conversa fora. Os passageiros eram ingleses, argentinos, cubanos e como eu vinha de Havana, pensaram que eu fosse cubano. E ele falou comigo em espanhol. Carol também falava em inglês, mas Madame Lupesku só falava em francês.

Depois disso eu me vi envolvido na festa da realeza e sendo alvo da inveja de todas aquelas mulheres inglesas, que estavam morrendo para sentar perto do rei no salão de jantar. Era um grande salão; nós tínhamos um chef francês que preparava os mais suntuosos jantares porque tinha a realeza a bordo. E lá estava eu, num papo firme com o rei da Romênia e aquelas mulheres não acreditando... quem era eu? Como podia estar falando com o rei e elas não podiam chegar nem perto dele? (risos). É a loucura da vida... coisas que você não espera. Eu cheguei a visitá-Io depois que chegamos ao Rio. Ele me deu seu endereço. Era no Copacabana Hotel, e eu fui lá fazer uma visita de cortesia e desejei-lhe felicidades. Toda a corte da Romênia estava lá e ele me falou: "venha me ver quando quiser". Mas eu imaginei que estava apenas sendo gentil e eu não poderia esperar me juntar àquele grupo socia!. Naquele tempo, ele estava sendo visitado pela família real do Brasil e diplomatas que vinham prestar-lhe seus respeitos e eu estava lá simplesmente porque ele tinha sido simpático comigo, e me senti um peixe fora d'água. 

ADF - É irônico que o presidente do Brasil o tenha chamado anos depois (segundo o entrevistador, Le Blanc foi condecorado mais tarde com a ordem do Cruzeiro do Sul).

LB - Que aventura... que passeio! Foi divertido, em todo caso.
Meu amigo Rick Estrada recentemente me falou sobre deixar de lado as lembranças de pessoas que não foram boas conosco, e eu tentei lembrar de algum inimigo para perdoar, mas tudo o que encontrei foram gentilezas... Não pude encontrar um só inimigo em minha vida, pessoas que deram uma informação errada e mudaram o curso da minha vida... não pude pensar em ninguém que tenha me ferido ou desviado meu caminho. Olho para trás e o que vejo parece ter saído de alguma novela... Não tenho ninguém para perdoar. Isso soa falso... uma briga de escola que me deixou o nariz sangrando acabou numa boa amizade... nunca tive alguém rancoroso comigo. E não posso me lembrar de alguma vez ter querido machucar alguém. As pessoas com quem me relacionei sempre foram tão positivas. Sou grato pela amizade e gentileza de todas as pessoas que encontrei pelo caminho. 

- André Le Blanc