quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Jornal do Brasil - 1982

Em 1982, o Jornal do Brasil (RJ) reformula sua página de quadrinhos iserindo dez tiras nacionais. Por ocasião dessa modificação, publica a matéria a seguir:

A VEZ DO QUADRINHO BRASILEIRO CHEGOU

Jornal do Brasil - 19.09.1982

Um velho sonho dos desenhistas brasileiros de histórias em quadrinhos - um espaço só seu na grande imprensa do país - começa a se relizar amanhã, no JORNAL do BRASIL. Dez das 20 tiras que o Caderno B passa a publicar todos os dias, de segunda a sábado, serão deles, seus personagens, suas aventuras.

São 11 desenhistas, com idades que variam de 22 (Hubert) a 47 anos no mês que vem (Maurício de Sousa), procedências várias, estilos diversos, mas unidos não só pelo amor à sua arte, "Uma arte que pode ser vista como uma forma moderna de fazer literatura", segundo Bruno Liberati: "como também por uma espécie de compromisso com a realidade brasileira".

Os 11 desenhistas concordam justamente neste ponto: qualquer que seia o seu personagem, um Pato, um Arlindo, um doutor Baixada, um Zarzan, suas histórias têm tudo a ver com uma realidade nossa, política, economia, hábitos, modismos, cultura.

Este tem sido, aliás, o papel da história em quadrinhos em todo o mundo, segundo a maioria dos desenhistas brasileiros, que começam agora a ganhar o seu espaço. Os heróis americanos, por exemplo, sejam antigos como a órfa Aninha, seja atual como o trintão Charlie Brown, sempre refletiram o espírito, os hábitos, a própria realidade da sociedade em que foram criados. Por isso muitos deles não foram compreendidos no Brasil.

Das 10 tiras que serão publicadas no Caderno B, a partir de amanhã, duas já são familiares aos leitores: As Cobras e Vereda Tropical. Como autor da primeira, Luiz Fernando Veríssimo, gaúcho, 46 anos, já era dono de um dos melhores textos de humor da imprenssa brasileira quando começou a se dedicar também aos quadrinhos. Diz ele: Acho que tenho valor como desenhista porque trabalho com uma desvantagem que a maioria dos outros não tem: não sei desenhar. Sempre gostei de quadrinhos e  quando me vi com um espaço no Zero Hora, de Porto Alegre, para encher diariamente, comecei a recorrer ao desenho, além do texto. 


Veríssimo, criador das cobras que conversam sobre tudo, inclusive (ou principalmente política, opina: Esta de encher uma página com brasileiros eu acho formidável. E uma conquista de espaço que estava demorando. Nada contra os estrangeiros. Não acho que se deva defender o que é nosso na base da xenofobia, ou só porque é nosso. O triste era saber que existia um monte de gente de talento aí sem oportunidade de publicar suas tiras por causa do quase monopólio dos estrangeiros, determinado por motivos econômicos. Estou batendo palmas. As cobras, se tivessem mãos, fariam o mesmo.


Vereda Tropical, do mineiro de Esmeralda. Ernani Diniz Lucas, o Nani, 31 anos, há 10 desenhando, fazendo charges, vivendo do seu traço, é outra história já conhecida dos leitores. Recentemente premiado no Salão de Humor de Piracicaba, também ele saúda a ampliação do espaço brasileiro nas páginas do Caderno B.

Bruno Liberati, cujo trabalho de ilustrador os leitores do JORNAL DO BRASIL já conhecem desde 1976, é paulista, tem 32 anos e já foi boy, técnico químico e "quase sociólogo" antes de se transformar em desenhlsta profissional. Avis Rara, sua tira que estreia amanhã, é definida por ele como uma galeria de bichos que tem de psicografar, todos os dias. Seu clima: a "tragédia brasiliensis".


Recentemente, numa noite tenebrosa de Botafogo, um bicho frenético baixou em minha prancheta, disse que era enviado de Glauber Rocha, que se chamava Paulo Valentino e que um dia almejou ser um artista de novela. Tinha muita coisa a dizer. O bicho foi assumindo a forma de um estranho pássaro e trouxe com ele uma lesma metida a besta chamada Ledesma, um atrevido passarinho de nome Arrepio, um hipopótamo argentino exilado em Copacabana, bichos que são inocentes e livres para dizer o que lhes dá na veneta. Inclusive: "como é duro ser brasileiro!"

Cláudio Paiva, 25 anos no mês que vem, niteroiense, com experiência em jornais, revistas e televisão (produziu e participou da manipulação de bonecos de espuma), prêmios em salões de humor em Curitiba, Teresina, Piracicaba, menção honrosa no México, presença em mostra na França, é o criador de Zarzan, que ele diz ser "uma tremenda curtição pessoal". A história, segundo Cláudio, mostra muito de sua descrença, do seu medo e desconfiança em relação ao Brasil.


É uma história essencialmente anárquica. O herói, Zarzan, será apresentado ao leitor na tira de amanhã: "Filho de um camponês do Projeto Jari com uma estagiária do Projeto Rondon." Depois de um ataque de jagunços ao grupo de posseiros que dividiam as terras de seu pais, Zarzan se vê sozinho em plena selva e ali começa a viver suas aventuras.


Cecília Vicente de Azevedo Alves Pinto, Ciça, paulista que passou a adolescência no Rio - e que se casou com o artista gráfico Zélio depois de viver algum tempo na França - dedica-se às histórias em quadrinhos há mais de 15 anos. É ela a criadora de O PatoAo pensar nas situações e personagens em meus quadrinhos, procuro retratar o humor do cotidiano urbano, seja no plano familiar, seja no plano político - diz ela. Isso soa sério demais, mas é no cotidiano que está a graça e a desgraça da qual a gente tem de rir e sobre a qual meditamos. O Pato: que sai na Folha de S. Paulo há
anos, será o seu veículo nesta tentativa de incluir o humor e o desenho dentro da realidade brasileira. 


É o mesmo caso de Luscar, ou Luis Carlos dos Santos, com seu Doutor Baixada. Paulista, 34 anos, autodidata, Luscar fala de seu personagem: Nasceu por acaso na época do Mão Branca. Um amigo, que editava o Jornal da Baixada, pediu-me para fazer a capa. Na mesma época a revista Mad encomendou-me a criação de um personagem que aproveitasse a onda do Mão Branca. É o Dr. Baixada. O nome é genérico, no sentido de baixo, baixeza, e não está necessariamente vinculado à Baixada Fluminense.


A noite, seus personagens, os garçons, os músicos, os bêbados, os boêmios, eis o tema de "As Mil e Uma Noites", a tira foi criada por Paulo Caruso, outra estréia de amanhã. Paulista, 32 anos. formado em Arquitetura e Urbanismo, colaboração nos principais jornais e revistas do país, presença em vários salões de humor. Caruso já publicou um álbum de sátiras políticas em quadrinhos, de parceria com Alex Solnik. Este seu novo trabalho segue a mesma linha, embora com outros personagens e outro ambiente.


Davilson, pernambucano de São Laurenço da Mata, 32 anos, foi apresentado por Ziraldo a Fortuna, em 1968, e desde então, a partir do suplemento humorístico dominical que o Correio da Manhã publicava, dedicou-se ao cartum. Quanto aos quadrinhos, diz que "a grande vitória" deste gênero, no Brasil, é esta iniciativa do JORNAL DO BRASIL, uma vez que as tiras nacionais tem uma história marcada por tentativas frustradas de ganhar espaço na imprensa. A Turma do Pé Sujo é a sua historieta: Ela conta o dia-a-dia de um grupo de super-heróis brasileiros, cariocas principalmente, frequentadores de um botequim típico.

Maurício de Sousa é o mais conhecido de todos os desenhistas brasileiros de histórias em quadrinhos, inclusive no exterior. Nascido em Santa Isabel, interior de São Paulo. Maurício sempre procurou imprimir às suas histórias uma filosofia: divertir, entreter e na medida do possíel, transmitir às crianças (e aos adultos) mensagens de otimismo. Seus personagens "não são neuróticos", mas gente que trata de resolver os próprios problemas. 

Muitos se inspiram em pessoas reais (Mônica e Magali, por exemplo, seriam suas filhas; Cascão e Cebolinha, colegas de infância e Horácio, o próprio Mauricio). Cebolinha á a história que representam o desenhista no espaco nacional dos quadrinhos do JORNAL DO BRASIL. O que se pretende é exportar o espírito alegre e comunicativo do brasileiro para todo o mundo.


Hubert, 22 anos e Agner, 23, trabalharão em dupla nas histórias a que deram o título de Lar Doce Lar. Nelas, um retrato da familia brasileira média. Ou, como explica Agner: Uma história que procura retratar as peripécias da familia de classe média urbana brasileira. Cada personagem é uma projeção dos nossos próprios familiares, todos estereotipados.

Agner publica desenhos desde os 11 anos de idade. Aos 15, já ganhava um concurso de monografias promovido pela Telebras, apresentando seu trabalho em forma de quadrinhos. Hubert fala menos de si mesmo: Minha infância e adolescência só interessam a mim e ao meu analista, assim que arrumar uma analista que pague para me analisar. Mas seu objetivo, nesta história, ele não esconde: Vamos retratar a família de classe média brasileira situando-a no contexto geral do sistema capitalista. Através de críticas, às vezes corrosivas, pretendemos promover uma ampla reestruturação moral de nossa socieade.

Veríssimo, Nani, Liberati, Cláudio Paiva, Ciça, Luscar, Caruso, Davílson, Maurício de Sousa, Hubert e Agner, juntos, a partir de amanhã, estarão mostrando suas histórias e seus personagens, ao lado das tiras estrangeiras que o JORNAL DO BRASIL já vinha publicando (e mais quatro novas, ou seja, Frank e Ernest, de Bob Thaves; Zezé e Cia, de Mort Walker e Dik Browne; Miss Peach, de Mell Lazarus e Dona Agatha, de Bill Hoest).


*Agradecimentos ao amigo João Antonio Buhrer pelo envio da matéria.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

O Espectro - O Jornal - 1969


Mário Monte, jovem e bem sucedido promotor, tenta desbaratar uma facção criminosa que atua dentro e fora dos presídios do Rio de Janeiro... Ele perde a visão durante um atentado para impedir o julgamento de um dos integrantes dessa quadrilha. Reestabelecido, mantém sua recuperação em segredo, com a ajuda do mordomo Jaime. Usando uma malha com a figura de um esqueleto e um resistente fio de seda, torna-se O Espectro e sai para combater o crime e proteger sua amada noiva Vivian em sua Mercedes esporte.

Segundo o blog Quadrinhos Brazukas, de Rômulo Rangel, O Espectro foi publicado no periódico carioca O Jornal, dos Diários Associados, entre 1969 e 1972, criado pelo desenhista Cláudio Almeida.


Apesar de se passar no Rio de Janeiro, a paisagem lembra muito alguma grande cidade norte-americana. Os nomes dos vilões também são bem peculiares, como Zach Martini, Al Luther e Joe Chicago.

O traje d'O Espectro é visivelmente calcado nos anti-heróis italianos Kriminal (de 1964, criado por Magnus e Max Bunker) e Killing (fotonovela de 1966). Nos desenhos podemos observar influências de Jim Holdaway, John Cullen Murphy e John Prentice, mas mesmo assim, a dinâmica das aventuras é formidável e a as histórias são muito bem contadas.


O Espectro foi retomado, com algumas adaptações e mudanças, nos anos 1980 na revista Spektro da editora Vecchi, com roteiros de Almeida e desenhos de Orestes de Oliveira Filho.

O Espectro na revista Spektro n° 20 - editora Vecchi - 1981

Sobre o autor, Claudio Almeida, a Enciclopédia dos Quadrinhos, de Goida e André Kleinert, registra:

"ALMEIDA, Cláudio - Brasil (?) 
Mais conhecido como roteirista e, esporadica­mente, desenhista, Cláudio Almeida dirigiu quase todo seu trabalho para a sátira e paródias. Gozou com programas de TV e novelas em revistas como Crazy (Bloch), Pancada (Abril) e Klik (Ebal), imi­tações da Mad e Sick norte-americanas. Também colaborou nas duas primeiras fases das edições brasileiras da Mad, publicadas respectivamente pela Vecchi e Record". 


Cláudio Almeida na revista Crás n° 5 - editora Abril - 1975

Cláudio Almeida desenha O Judoka para a Ebal em 1973.


terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Entrevista - José Carlos CRISPIM - Edrel

Bate-papo/entrevista com Crispim (José Carlos Crispim), pioneiro desenhista da lendária editora Edrel, realizada por Luigi Rocco em 19/11/2017 por ocasião do relançamento do Álbum Encantado, publicação que é considerada o marco inicial dos mangás no Brasil.

Luigi Rocco - Crispim, fale um pouco de você...

Crispim: Meu nome é José Carlos Crispim, filho de Maria Pignattari Crispim (carinhosamente Nena) e Juarez Crispim (o Bem para os mais íntimos) in memorian.

Nasci em 15 de setembro de 1950 no Hospital Maternidade Leonor Mendes de Barros na Av. Celso Garcia, 2477, Belenzinho, São Paulo, SP. Hospital criado em 1944 pelo Governo do Estado de São Paulo. Não sei porque fui nascer lá, eu deveria ter perguntado para minha mãe (dizem que quando a mãe da gente morre, leva com ela metade da nossa história), acho que pelo fato de meus pais não terem condições financeiras. Era um hospital público que prestava atendimento a mulheres carentes, especialmente gestantes e parturientes.

LR: Como você começou a se interessar por desenho?

C: Um dia, devia estar com cinco ou seis anos, um tio, cunhado de minha mãe, fez um desenho, num pedaço de papel para me agradar, por algum motivo, não me recordo. Ele não era desenhista, mas, me causou boa impressão. Foi aí que comecei a gostar de desenhar. Lembro que o desenho que ele fez era simples, à lápis, era tipo de um sitio ou fazenda com animais por todos os cantos e o que mais me agradou foi a cerca com arame farpado que ele tentou representar naquele desenho, uma porteira com os mourões de espaço em espaço, um e outro caído ou encostado em outro. Não sei explicar, aquela desorganização me agradou muito. Para os meus olhos de criança parecia perfeito. Comecei então a tentar reproduzir aquela imagem, sempre que podia e com incentivo de minha mãe.

LR: Como foi seu início na Edrel?

C: Já na adolescência, estudando no Educandário Santa Helena, na Vila Gumercindo, bairro entre Ipiranga e Vila Mariana em São Paulo, o Sr. Salvatore Cassino, diretor da escola, sabendo da minha vocação para desenho, indicou para eu ir até uma gráfica de uns amigos dele e procurar o Sr. Salvador Bentivegna ou seu filho e sócio João Bentivegna. Era a Gráfica Bentivenha, na Rua Tamandaré, 197, esquina com a Conselheiro Furtado. Uma gráfica de pequeno porte, porém, editava e produzia revistas conhecidas em todo o Brasil, revistas que eu já conhecia nas bancas de jornais. Foi uma emoção e tanto!

Lembro que foi o Sr. Salvador Bentivegna quem me recebeu e foi dizendo: Aqui na gráfica não tem nada para você fazer, dê um pulo neste endereço, Rua Conselheiro Furtado, 1033, procure o Toninho, vê se ele precisa da sua ajuda!

Como era perto dali, fui imediatamente. Ao chegar no endereço citado me deparo com um casarão. Aperto a campainha, uma senhora me atende e diz: O Toninho é lá no fundo, é só seguir o corredor. (decepção!). Um quartinho minúsculo onde encontrei um senhor baixinho, não muito gordo, acho que calvo, não me lembro, sentado em frente à uma prancheta de desenho, toda bagunçada, era muito papel amontoado. Acho que a desorganização era por absoluta falta de espaço. Ali estava o Toninho, ou Sr. Antonio Duarte. Me atendeu com uma educação fora de série. Mostrou seus desenhos, mostrou e me presenteou com desenhos originais de outros artistas (Aylton Tomaz) que eu já conhecia através das Revistas Contos de Fadas, aquelas histórias em que a mocinha sofria nas mãos da bruxa malvada e no final se dava bem e ainda ficava com o príncipe da história! Originais que guardo até hoje com muito carinho. Foi toda essa atenção que compensou a primeira impressão que tive do lugar.

Foi logo perguntando se eu tinha algum desenho para ele poder analisar meu potencial, como não tinha, pediu para eu voltar outro dia com um desenho, de preferência coberto com nanquim e em papel Canson (uma marca de papel perfeitamente liso, tratado e ideal para esboços e desenhos). Até ali eu só tinha desenhado na escola, em folhas de cadernos e a lápis, não tinha a menor noção de como atender aquele pedido, não sabia o que era tinta nanquim e nem sabia que existia o tal papel, só sei que me disse: Faça o melhor que puder!

Um ou dois dias depois, voltei ao local e apresentei a ele uma charge feita a lápis. Não me arrisquei passar nanquim porque não sabia fazer. O que me lembro é que quando mostrei a ele o desenho, foi logo demonstrando suas habilidades e saiu cobrindo o desenho com nanquim usando uma caneta de pena esquisita, ponta rombuda, própria para desenho, tentando me ensinar a técnica.

Alguns meses depois, não sei exatamente quanto tempo, vejo aquele desenho publicado em uma revista de nível nacional. Fiquei muito emocionado, a alegria era demais! Lembro como se fosse hoje. Garotas e Piadas nº 4 da Editora Pan-Juvenil. Foi aí que caiu minha ficha, aquele endereço que o senhor Salvador Bentivegna havia me fornecido era o Estúdio de Artes da própria gráfica e se chamava Editora Pan-Juvenil. É, isso mesmo, aquele quartinho, fundo de quintal era o estúdio da editora.

Entre uma ida e vinda no estúdio da Pan-Juvenil o Toninho me disse que um japonês, amigo dele, estava montando uma equipe de desenhistas e que eu deveria ir até lá, Rua Conde de Sarzedas, popularmente conhecida como Baixada do Glicério, número 377 - 21º andar - sala 2106 - Editora Acaraí.

Como já havia aprendido a lição, fui munido de alguns desenhos.

Lembro que foi o Sátiro (Luiz Sátiro ou 'Victor Forde') quem atendeu na porta, um garoto, talvez um pouco mais velho que eu. Me apresentei, fui convidado a entrar, era uma quitinete, o Sátiro me apresentou ao Nézinho (???). Acho que foi algum tipo de gozação, pois era o que mais sabiam fazer. Nézinho era nada mais nada menos que Fabiano Julio Dias. E o japonês não estava!

Comecei a ir diariamente naquele endereço em busca do japonês, enquanto esperava, ficava me familiarizando e aprendendo a preencher de nanquim áreas pretas dos desenhos do Fabiano. Fazia isso com muita cautela e preocupação para não errar, eu nem sabia que existia guache branco para corrigir, e aproveitava para aprender a desenhar com Fabiano. Não sei quanto tempo isso durou, dois, três dias ou uma semana, cheguei a pensar que o japonês não existia. Um dia lá estava ele, Minami Keize, vinte anos, garoto novo, baixinho como a maioria dos japonês, enigmático, poucas palavras, sorriso discreto, terno preto surrado, sapato mal engraxado e tentando se mostrar simpático.

Nascido em 1945, Lins, interior de São Paulo de família tradicional japonesa, Minami, desde criança, sempre teve contato com mangás e revistas japonesas. Em 1963 veio para São Paulo tentar a carreira de desenhista. Trouxe na mala um personagem que ele mesmo criou “TUPÃZINHO”, sempre tentando publicá-lo e não obtendo sucesso.

O Tupãzinho em estilo mangá de Minami Keizi. Revista Tupãzinho nº 01.

Em 1964, depois de muitos tropeços, lutas e sacrifícios cria sua própria Editora em sociedade com Gedeone Malagola. É a partir daí que “TUPÃZINHO” começa a surgir e até se tornar logomarca da Editora.

Parecia que já me conhecia, fez me sentir como se já trabalhasse ali. Na realidade, sem eu saber, já estava trabalhando, pois o pouco que fiz nas horas de espera foi tudo aproveitado tempos depois.

Curiosidade: Um dos meus primeiros desenhos publicados pelo Minami Keize na revista Tupãzinho nº 2, da Editora Pan Juvenil, continha aquela cerca, muito mal feita, que eu aprendi a desenhar observando o desenho de meu tio lá na infância.

Revista Tupãzinho nº 02.

Fui contratado. Agora eu fazia parte da equipe interna na Editora Acaraí ou Produções Minami Keize.

A equipe: Minami Keize, Fabiano Julio Dias, Luiz Sátiro e eu José Carlos Crispim. O Antonio Duarte era da Pan Juvenil (colaborador).

Com a equipe formada, Minami solicitou, a todos, que se reproduzisse desenhos de mangás que ele trazia para dentro da Editora. Talvez, até sem saber, Minami estava dando um pequeno, mas, grande passo para a história dos mangás no Brasil.

1966 foi o período mais fértil em aprendizado para mim, e realizações para toda a equipe.

LR: O Minami vendia material gráfico pro Diário Popular, tiras e passatempos, e já tinha desenho seu lá...

Crispim, Luís Sátiro (Victor Forde) e o Tupãzinho por Fabiano Dias no Diário Popular em 1966.

C: Sim, eu era meio que um funcionário do Minami, ele pedia o material e a gente fazia, daí ele saía pra vender. Minami criou o Tupãzinho, mas quem desenhava mesmo era o Fabiano.

LR: Você é o único colaborador do Álbum Encantado que ainda está vivo, não é?

C: Sim, só restou eu. Nesse aspecto tem um detalhe que eu já falei pro Márcio Baraldi, o Álbum Encantado foi impresso pela Pan-Juvenil, mas na verdade, ele foi concebido na editora Acaraí! 

Crispim e Fabiano no Álbum Encantado.

Minami realizou um sonho, que tinha idealizado a muito tempo, publicou o "Álbum Encantado". Quase todo material interno do álbum voltado para mangás. Minami Keizi lançou uma pesquisa através das revistas da Editora Pan-Juvenil projetando o Fabiano como melhor desenhista humorístico do Brasil.

Eu em seis meses já desenhava e finalizava sozinho histórias em quadrinhos. (Álbum Encantado; Tupãzinho nº 3).

Revista Tupãzinho nº 03.

LR: Nas páginas finais do Álbum Encantado existem algumas tiras de uns garotos (Vovô e Vivinho / Poeira F.C.) de um desenhista chamado Salgueiro, você se lembra dele? 

Poeira FC do desenhista Salgueiro no Álbum Encantado.

C: Infelizmente não! 

LR: Quanto tempo durou essa etapa?

C: Fiquei naquela equipe, exato um ano, do final de 1965 à 22 de Setembro de 1966. Sei desta data porque trago comigo, de lembrança, um desenho original do Fabiano com dedicatória. Sai da equipe porque precisava trabalhar com algo mais rentável e menos sonhador, que me desse mais condições para eu poder ajudar minha família que estava necessitando. Meu pai estava atravessando uma fase muito difícil era muitas bocas para ele, sozinho, sustentar. 

Continuei mantendo contato com o Fabiano e través dele produzia desenhos como freelancer para a Editora, ele me ajudou muito, sabia das minhas necessidades. Era uma forma de eu ter um ganho a mais. 

LR: E o Minami Keizi?

C: O Minami era um visionário. O sonho dele era ter uma editora que superasse a editora Abril. Inclusive uma vez, no expediente de uma das revistas da Edrel, ele fez um desenho do Tupãzinho com um machado na mão derrubando a árvore da Abril!!! 

LR: E a seguir?

C: No início de 1967, a Editora mudou para a Rua Tamandaré, 140. A Editora Acaraí deixou de existir, o Minami entrou em sociedade com o Sr. Salvador Bentivegna e Jinke Yamamoto, e assumindo a Editora Pan-Juvenil trocou o nome para EDITORA EDREL.

Alguns meses depois a Edrel amplia suas instalações, aluga uma casa ao lado, e o endereço passa a ser Rua Tamandaré, 140/150. Sinal de bons ventos para a editora. Não ouso mais falar de Luíz Sátiro, acredito que foi nesta época que ele se desligou da equipe.

É a partir do final de 1968 que volto a rever e ter contato mais direto e frequente com o Minami, uma pessoa totalmente diferente daquela que eu havia conhecido, agora era um empresário bem sucedido, usava óculos com ar de intelectual, terno impecável, sapatos limpos, não andava mais a pé, tinha seu próprio carro. Comigo, particularmente, mantinha certa distância. Nunca entendi. Talvez por eu ter abandonado o barco nos tempos da Editora Acaraí.

Em agosto de 1969 ainda com 18 anos, sou convidado, por insistência do Fabiano, a trabalhar internamente na Editora Edrel. Agora como desenhista fixo e profissional, com registro em carteira e um bom salário.


"José Carlos Crispim, como se vê, é um jovem valor que tem muito ainda a mostrar. Desenhou várias histórias em parceria com o FABIANO J. DIAS. Mas o seu forte são as piadas."
A Técnica Universal da Histórias em Quadrinhos - Fernando Ikoma 

Sem entender muito o que estava acontecendo internamente no comando da Editora, nessa época, vejo o Sr. Salvador Bentivenha se desligando da empresa e dando lugar na sociedade ao Sr. Marcilio Valenciano que já trabalhava na editora como administrador contábil.

Foi nesta época que consegui colocar a primeira geladeira e a primeira TV na casa dos meus pais. Me sentia todo orgulhoso, sempre que ia fazer crediário em alguma loja e tinha que apresentar minha carteira de trabalho as pessoas perguntavam se eu ganhava mesmo tudo aquilo. Não era muito, três ou quatro salários mínimos, acima da média, para um garoto de 18 anos, só com formação primária. Eu não representava a idade que tinha, era muito franzino.

1970 foi um ano de ouro, a Editora fez muito sucesso. Produziu muitas revistas de garotas semi-nuas e contos eróticos. O que me incomodava era quando as pessoas insinuavam que eu trabalhava com pornografia ou num antro de prostituição. Isso nunca foi verdade. 

A Edrel comercializava erotismo. Tentar demarcar o território do erotismo e da pornografia sei que é uma tarefa arriscada pelo fato de ser conceitos. O que sei dizer é que pornografia, em linhas gerais, é sexo obsceno, direto e explícito. Coisa que a Edrel não fazia e não comercializava. As mulheres que o Fabiano desenhava eram maravilhosas. Nesse aspecto ele tinha bastante influência do desenhista Queiroz, mas com um estilo particular, dele!


As garotas de Fabiano.

Passavam por lá muitas garotas, talvez achando que ali fosse uma porta aberta para a carreira de modelo, todas querendo aparecer, nada de mais, era tudo muito profissional. Garanto! Eu não era mais criança, sabia o que estava acontecendo. A Edrel era uma empresa organizada que mantinha respeito com as pessoas que alí passavam e trabalhavam no dia a dia, secretárias, pessoal de limpeza, menores para serviços externos, enfim era uma empresa de respeito, caso contrário não teria progredido. Aparecia, por lá, artistas famosos da época, lembro da atriz Liz Vieira, uma garota muito bonita, o comediante Walter Stuart, cantor Reinaldo Calheiros e muitos outros. Se as pessoas marcavam encontros ou acontecia alguma coisa fora dali, aí sim, eu não sabia. Cada um com seus problemas.

Como a equipe de produção interna era pequena a gente tinha que se desdobrar para as coisas acontecerem. Com isso passo a me entender como um operário produtor de charge em massa, produzia cerca de dez charges diariamente. Nunca me considerei um grande desenhista. Marcava cartão, preenchia livro de produção do dia, participava de seções fotográficas, esboçava roteiros para foto humor de contos eróticos escritos por Wilson Carlomagno e Nelson Cunha. Muito trabalho!

Almanaque Rirvistinha - 1971

Não posso negar, gostava daquele agito todo, era muito divertido, porém foi um período que me deixou seqüelas para o resto da vida, sempre lutando e tentando provar que trabalhava com a divulgação da sensualidade, nunca trabalhei com pornografia ou obscenidades. As idéias do Minami eram boas! Na verdade o que faltou foi critério de execução e qualidade nos produtos. Tanto é verdade que outras editoras com a mesma linha de revistas eróticas continuam no mercado até hoje.

Não podemos esquecer que todo esse período que atravessamos era uma época de turbulência no País com a ditadura militar que foi de 1964 à 1985. Tudo que fazíamos era na raça e sob censura.

LR: Em 1971, na revista Mil Piadas nº 35, saiu uma história em estilo mangá chamada A Garçonete que tinha créditos seus: roteiro, desenhos, letras... Você pode falar sobre ela?

Mil Piadas, n° 35 - 1971

C: Lembro pouco desse material, mas posso garantir que não era decalque. Era material original, desenhado em papel branco. Pode sim,  ter sido inspirada em algum mangá que o Minami me mostrou, mas foi tudo desenhado na raça, sem auxilio de papel vegetal, por exemplo. Inclusive as retículas eram feitas manualmente!!! Acho até que pode ter sido produzida na época da Acaraí, quando o Minami queria introduzir o mangá no Brasil e publicada posteriormente, em 1971...

LR: E você guardou material dessa época. Tem uma cópia do Álbum Encantado?

C: Sim, eu tenho toda a minha trajetória na Edrel arquivada em pastas e em ordem cronológica!

LR: Por quanto tempo você ficou na Edrel?

C: Fiquei por cerca de quatro anos, de 1968 até 1972. Lá eu fazia uma média de dez cartuns por dia! Eu nem me considero um grande desenhista, mas tenho o maior orgulho de ter convivido com profissionais do calibre do Fernando Ikoma, do Fabiano, do Paulo Fukue e tantos outros! 

Lembro uma vez em que o Fernando Ikoma foi entregar material na Edrel, ele tinha um estúdio externo, não ficava na editora como eu e o Fabiano, e faltaram quatro páginas... Ele não teve dúvidas, sentou na prancheta e começou a desenhar. Pouco depois estava pronta a história! Naquele dia, nem eu nem o Fabiano trabalhamos, ficamos só vendo o Ikoma desenhar!

Fabiano Dias desenhando em estilo mangá.

LR: Como foi a sua saída da Edrel?

C: Em 20 de maio de 1971 o Sr. Minami Keize, desgastado, se retira da sociedade. Tanto para o Fabiano como para mim, foi um choque. Aquilo não podia estar acontecendo! Era o começo do fim da Editora Edrel. A gente sabia que Minami era a alma de tudo aquilo.

Marcilio, era da área administrativa e Jinke, da área de impressão gráfica, chegaram a pensar que o Minami poderia ser facilmente substituído na área de criação. Então convidaram o Paulo Fukue, um colaborador assíduo, para fazer parte da diretoria. Escolha correta, perfeita, porém, o Minami era insubstituível.

Paulo Fukue trouxe com ele seus irmão, Mario e Roberto Fukue, duas feras na criatividade e no desenho. Infelizmente nada adiantou. Não que eles fossem incapazes, mas a Edrel era cria do Minami. A Editora estava a caminho da falência.

1972 é o ano em que a Editora muda para a Av. Celso Garcia, 1608, unificando o complexo editora, gráfica e fotolito. Aparente progresso! Na verdade, só não via quem não queria, contenção de gastos!

Estava nítido o fracasso! Funcionários importantes das áreas gráfica e fotolito se retiraram. Lembro que fui convidado a aprender processar fotolito para conter despesas e a editora continuar caminhando. 

Em 18 de agosto de 1972, com meu salário muito defasado e com acumulo de funções, mesmo sabendo das dificuldades da Editora, resolvo encarar o Sr. Marcilio Valenciano com a seguinte, infeliz (ou feliz), frase:

- Ajuste meu salário ou vou embora!

Com um sorriso sarcástico, parecendo um lobo voraz a espreita de ovelha, prontamente respondeu:

- Você acabou de pedir a conta! 

?????

LR: E o que você fez?

C: A única coisa que me lembro da Editora Edrel, após este fato, foram os minutos seguintes e não me envergonho de dizer: - Sai do escritório, minha mente confusa numa mistura de raiva, medo e preocupação, sentei no meio da escada que dava acesso para a rua, e chorei.

Era um final de dia, assim que me retirei da Edrel, passando em frente a uma loja vizinha, que vendia colchões, perguntaram se eu trabalhava com gráfica, respondi que sim (mentira). Eles precisavam de cartões de visitas. Eu nem sabia por onde começar, só sabia que não poderia perder aquela oportunidade. Entendi que aquela seria a forma de eu começar a ganhar alguns trocados. Tinha adquirido a capacidade de criar artes, porque então não criar um simples cartãozinho de visita? 

No dia seguinte, sai procurando gráficas que pudessem me produzir aquele trabalho e eu poder ganhar alguma coisa sobre aquilo. Acabei encontrando uma tipografia na Av. Jabaquara, de propriedade do Sr. Osvaldo Duarte que prontamente me atendeu e me ensinou como vender e ganhar pequenas comissões.

LR: E você abandonou de vez o desenho?

C: Como já disse, nunca me considerei um grande desenhista, não é falsa modéstia, é que eu havia trabalhado no meio de grandes artistas como Fabiano Julio Dias, Paulo Fukue, Cláudio Seto, Fernando Ykoma e muitos outros. Isso acabava me deixando um pouco tímido. No entanto, tinha noção do meu potencial, tanto assim que, quando sai da Editora Edrel, entre vender um cartãozinho e outro peguei algumas revistas com publicações minha e alguns originais e procurei o Sr. Maurício de Souza. Isso mesmo! O pai da Mônica, da "Turma da Mônica" e fui mostrar o que eu sabia fazer para tentar um emprego.

O Sr. Maurício de Souza me atendeu com educação, porém muito rápido, mal folhou as revistas e mal analisou meus desenhos. Foi logo dizendo: Vai aprender a desenhar depois volte aqui! Com aquelas palavras Maurício de Souza acabava de ganhar seu inimigo número 1.

Eu estava com 22 anos. Aquelas palavras foram pior que um balde de água fria. Parei de desenhar.

LR: Sua saída da Edrel foi providencial, pois a editora não durou muito mais tempo depois disso...

C: Sim, e começou neste período a construção do Metrô em São Paulo, o túnel da linha Sul ia passar pela Rua Domingos de Moraes em sentido ao Jabaquara, bem em frente a gráfica do Sr. Osvaldo. Para a execução das obras foi criado um tapume nas calçadas, em toda a extensão da avenida, prejudicando o comércio local. Poucos foram os que resistiram. 

Osvaldo foi obrigado a fechar sua gráfica. Era o ano de 1973. Começou, então, a trabalhar em uma gráfica na garagem da TV Gazeta, produzindo jornais para sindicatos tendo como redator, influente no meio sindical, Antonio Carlos Felix Nunes, o criador do personagem João Ferrador. A partir dali é que comecei a ver sua forma de trabalho e poder aprender com ele. Eu ficava observando e achava aquelas montagens para confecção dos jornais meio grosseiras, resolvi mostrar o que eu mais sabia fazer e que havia aprendido nos tempos da Edrel a respeito de paste-up. Daquele dia em diante me transferiu aquela tarefa. 

O Antonio Carlos Felix, um dos maiores jornalistas sindicais do país que, na época, trabalhava no “Notícias Populares” do grupo da Folha de São Paulo, era ele que tinha o contato com vários sindicalistas, o Osvaldo Duarte compunha em linotipo e tirava as provas em papel, eu fazia os títulos e as montagens.

Agora sim eu estava ganhando dinheiro de verdade. Criamos então a Editora Jornalística Criart, Rua das Flores, centro de São Paulo próximo à Praça da Sé. Havia em nossa carteira de clientes mais de vinte sindicatos de classe, entre eles o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e o Sindicato dos Bancários de São Paulo. Sindicatos que produziam em média, cada um, 200.000 exemplares, por mês, de informativos. Tive muito contato com a cartunista Laerte, que nessa época se dedicava à ilustração sindical.

Foi aí que reencontro Fabiano, um cara acabado, desanimado e tentando largar do vício da bebida, vício que adquiriu com a decepção que teve na Editora Edrel. Me contou da falência da Editora por ser mal administrada.

Me senti na obrigação de ajudá-lo. Devia isso a ele dos tempos da Edrel. Sem hesitar e sem consultar meu sócio fiz o convite para vir trabalhar na minha empresa, com a condição de parar de beber. Eu tinha trauma de criança de quando via meu pai bêbado.

O Fabiano aceitou e cumpriu a promessa durante um curto tempo que trabalhou comigo.

Naquela época tinha início uma onda terrorista que ficou para a História do Brasil, vários atentados, em sua maioria explosões de bombas em bancas de jornais que vendiam periódicos de esquerda, da chamada imprensa alternativa. 

A contratação do Fabiano durou uns quatro ou cinco meses. Um dia, sem mais nem menos, pura infantilidade, característica do Fabiano, muito brincalhão, sem pensar em conseqüências jogou uma bombinha, essas de festa junina, dentro do poço do elevador. Imaginem o estrondo em pleno centro de São Paulo.

Naquele dia,18 de Junho de 1979, sem questionamento, quem não hesitou e nem me consultou foi o Oswaldo, meu sócio, dispensou o Fabiano imediatamente.

Um belo dia, que surpresa, Minami Keize, bateu na porta da minha gráfica, agora no Jabaquara, Rua Massaranduba, com máquina rotativa e fotolito próprio. Terninho preto, surrado, sapato mal engraxado, falando baixo, não me lembro como chegou lá ou quem indicou, estava buscando orçamento para impressão de algum livro seu. Não consigo explicar o que senti naquela dia. Era um misto de sentimentos, orgulho, emoção, arrepio... Nossa!!!! achava que aquilo era impossível estar acontecendo. Será que o discípulo havia superado o mestre? Fiquei muito triste e surpreso, quando, entre uma conversa e outra o Minami disse que o Fabiano havia falecido em 1979. Praticou o suicídio.

Fabiano carregava com ele uma magoa profunda, herança da falência da Editora Edrel. Fabiano já não andava bem quando o contratei. Acredito que por causa de toda aquela correria do meu dia-a-dia, não percebi nenhum sinal de depressão. Que pena, ele não merecia esse fim.

Nesse período eu editei uma revista de humor, para aproveitar o talento do Fabiano e acabei conhecendo o Franco de Rosa e o Jal. (Segundo o Franco: "...fizemos uma revista chamada Umas e Outras Piadas... onde publiquei muitas tiras do Chucrutz. Remontadas, como cartuns em sequencia"). 

Saíram pelo menos três números, com planejamento da Criart, mas, como eu não tinha um esquema de distribuição em bancas, elas foram lançadas com o selo da editora Bártolo Fittipaldi.

Umas e Outras Piadas, nº 01 e Laerte na editora Criart.

LR: E hoje em dia?

C: Muitos anos depois, lá pelos anos 2000, num dia de muito calor, de bermuda e chinelo, eu estava tirando um descanso no meu sofá reclinável, com as pernas para cima, em frente á televisão e com o controle na mão passeava pelos canais da tv quando me deparei em um certo canal com uma entrevistadora perguntando para o Sr. Maurício de Souza como ele fazia para selecionar desenhistas para a sua equipe. Ele respondeu: Primeiro eu digo: Vai aprender a desenhar depois volte aqui! Se o garoto voltar a segunda vez eu digo: Você já melhorou bem, volte outro dia! Se o garoto voltar a terceira vez, mesmo que ainda não saiba desenhar, fico com ele. É dessas pessoas persistentes que eu preciso na minha equipe.
Desliguei a televisão. Quis fazer de conta que não era comigo. Tentei cochilar e não consegui, estava com raiva de mim mesmo, comecei a rir sozinho, como fui ingênuo. Com aquelas palavras Maurício de Souza acabava de reconquistar, quarenta anos depois, seu fã número 1.

Hoje, com 67 anos, percebo que desenhar é como andar de bicicleta. Nunca se esquece! Estou depositando toda minha garra e retomando o desenho. Antigamente na prancheta, em papel Canson, com lápis, borracha e tinta nanquin. Hoje, mais moderninho. No Photoshop. Tenho um guia eletrônico de serviços na internet que atende à industria e ao comércio de toda a região de Mairiporã. Hoje em dia, quem presta serviços à cidade de Mairiporã está nesse meu site.

LR: Valeu Crispim, obrigado pela atenção.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Casa Grande Sem Sala - 1986


Casa Grande Sem Sala, tira criada pelo cartunista Ykenga e que abordava as questões raciais. 

Foi distribuída pela Agência Funarte em 1986 para vários jornais.

Ykenga (Bonifácio Rodrigues de Mattos) é carioca, nascido em 1952 e desenhista técnico por formação. Começou fazendo charges para a revista Ébano e para a imprensa sindical em 1978. Publicou n'O Pasquim, Última Hora , Jornal do Commercio, O Fluminense e O Dia.

Casa Grande Sem Sala saiu em revista própria em 1996 pela Ykenga Editorial. Ykenga também lançou um livro de charges com o mesmo título em 2015.


Revista Casa Grande & Sem Sala - 1996.

sábado, 25 de novembro de 2017

O Último dos Tatuís - 1987


"Tatuí é uma espécie de crustáceo que habita praias arenosas, fazendo escavações na areia. São encontrados na zona de arrebentação das praias do Brasil, onde vivem enterrados na areia, a pouca profundidade. Sua presença é um indicador da qualidade ambiental de uma praia: praias com um certo grau de poluição ou de presença humana não costumam mais apresentar tatuís".

O Último dos Tatuís é uma criação do cartunista Argil (Gilberto Mauro Rodrigues) e trata, com bastantante veemência e crítica, do problema ambiental dos mares brasileiros. O Tatuí vive em uma praia devastada e entulhada de lixo!

Foi publicado em livro em 1987 com impressão da editora Ebal

Segundo o editor Otacílio D'Assunção Barros (Ota), Argil já é falecido.

Charge de Argil, ELEIÇÕES - Rio, Novembro de 1986. Vê-se as opções para o Governo do estado, o vencedor Moreira Franco, Gabeira, Agnaldo Timóteo e Sinwal Palmeira.