segunda-feira, 31 de julho de 2017

Piparoti - Correio da Manhã -1968


Piparoti foi criado por Daniel Azulay em 1968 para o jornal Correio da Manhã e contava de forma poética e lúdica as aventuras de um garotinho. 

Graficamente, o traço de Daniel nessa série era bastante arrojado e abusava da gestualidade, principalmente nas áreas escuras, que eram executadas com pinceladas grossas e rápidas.


Em 1969 Piparoti passou a ser publicado no jornal Última Hora, agora abordando assuntos esportivos.

Piparoti no Última Hora.

Posteriormente, o personagem foi totalmente reformulado para participar da Turma do Lambe-Lambe.

O Piparoti reformulado no Circo Lambe-Lambe (Jornal do Brasil, 1980).


AZULAY, Daniel
Brasil (l947) - Bem jovem, entre 1968/69, Azulay desenhou as tiras diárias do Capitão Cipó para o Correio da Manhã. As tiras de Azulay eram uma crítica aos super-heróis e aos valores culturais daquela época de ditadura militar. Na década de 80, para o caderno Quadrinhos do Jornal do Brasil”, criou uma página inteira em cores, o “Circo Lambe-Lambe”, que misturava quadrinhos, curiosidades e jogos. Azulay atuou também como ilustrador, caricaturista e apresentador de TV, em programas dedicados às crianças.

Enciclopédia dos Quadrinhos - Goida / André Kleinert - L&PM - 2011

sábado, 29 de julho de 2017

Paulino e Albina - A Gazetinha - 1933


Paulino e Albina, um casal de garotos, criados por Belmonte para o suplemento infantil de A Gazeta.

Segundo Gonçalo Jr. em seu livro Belmonte (Editora Três Estrelas - 2017): "Coube a Belmonte ser um dos primeiros artis­tas a dar traço aos personagens infantis criados por Monteiro Lobato: Dona Benta, Pedrinho, Tia Nastácia, Visconde de Sabugosa, Emília, Narizi­nho e tantos outros. Entre 1929 e 1937, ele ilus­trou cinco livros do escritor para crianças.


O contato com Lobato incentivou Belmon­te a criar os próprios personagens infantis, que apareceram na Folha da Manhã e no suplemento "A Gazetinha", do jornal A Gazeta. (...) Sempre de forma sutil, o cartunista criticava o racismo: apresentava personagens negros tra­balhando como carregadores ou empregados do­mésticos, quase sempre malvestidos, em situação visivelmente inferior à dos brancos. Mais tarde, em 1932 (na verdade, em 1933), ele criaria, também para A Gazeta, a dupla Albina e Paulino, que ajudaria a propagar entre as crianças os ideais dos revolucionários paulistas".

Finalmente, os quadrinhos de Belmonte!

Belmonte desenhou 130 páginas de Histórias em Quadrinhos n'A Gazetinha. Destas, 99 são pequenas tiradas cômicas de página inteira (17), focalizando quase que invariavelmente as traquinagens dos pequenos heróis, Paulino e Albina, a grande amiga de travessuras, acompanhados sempre do inseparáve1 cãozinho.

Apenas 4 são histórias seriadas, publicadas em capítulos semanais; 3 se desenrolam em 9 páginas ou capí­tulos; uma só, pequena, tem 4 pági­nas; não trazem título, cada capítulo ostenta, no alto mas logo abaixo do cabeçalho do jornal, uma pequena fra­se à guisa de título ou síntese do epi­sódio. No quadro abaixo, portanto, identificamos cada história com título do primeiro capítulo ou por palavras que sintetizem a história:

Aventuras do Paulino e da Albina de 28 de setembro de 1933 a 20 de novembro de 1933, 9 páginas. Os bandeirantes mirins de 7 de dezembro de 1933 a 15 de fevereiro de 1934, 9 páginas. Isto será sonho ou será verdade? de 7 de junho de 1934 a 28 de junho de 1934, 4 pági­nas. Será nosso princeza de 2 de agosto de 1934 a 4 de outubro de 1934, 9 páginas.

Antônio Luiz Cagnin, revista Phenix nº 1, Editora Cluq, 1997.



quinta-feira, 27 de julho de 2017

Daniel Azulay - Entrevista - 1978

Daniel Azulay e A Turma do Lambe-Lambe

Por Marcelo Correia Lima – especial para a ECAB - 1978

Nome consagrado na caricatura nacional, o carioca de Ipanema Daniel Azulay faz de tudo na profissão, versátil que é, desde jornal a televisão. Já foi até advogado. Fiel à gravata que sempre usa, em especial quando posa para a imprensa, Azulay às vezes transpira um certo ar surrealista. No fundo, revela-se um terrível gozador de profundo senso crítico, que se esconde por trás de um largo sorriso e de respostas inteligentes. 

Daniel Azulay, cartunista maior, fala aqui um pouco de si e sua obra.

Ilustração para o Correio da Manhã - 1969

 Parece piada, mas a carreira do cartunista carioca Daniel Azulay, 31 anos, começou no fórum. Da beca — vendo que não tinha muito a ver com o direito — para a prancheta foi um pulo, que demorou dois anos para dar. Mas antes de se formar ele já desenhava. Na verdade, os primeiros traços foram feitos em O Globo quando tinha 15 anos, onde publicou na seção de palavras cruzadas o seu primeiro e único desenho naquele jornal.

— Como estava engatinhando, eu só queria mesmo era ver o meu trabalho publicado, diz Azulay. Mas foi somente três anos depois, isto é, aos 18 anos de idade, que ele começou a fazer os primeiros trabalhos como profissional. Isto se deu no Jornal dos Sports — do saudoso Mário Filho.

A partir dessa primeira experiência na imprensa como profissional é que Daniel Azulay se consagraria como cartunista. Em 1967, do JS foi para O Sol onde brilhou na companhia de muita gente hoje famosa, que então se lançava naquele veículo como Juarez Machado, o falecido Vagn, Henfil, Ziraldo etc.

— Aliás, foi nessa época que nós fundamos o suplemento de humor de O Sol e abrasileiramos o palavra “cartoon”, “cartoonist”, cartunista, para a qual ainda não tinha uma tradução definida no vocabulário português, lembra Daniel. Fascinado pelo cartum humorístico e as histórias em quadrinho, ele põe logo seu poder criativo (e crítico) para funcionar e surge o personagem precursor de seus desenhos — o chamado Capitão Sol. E um tipo de nome Cipó, que ele considera um dos seus personagens mais conhecidos.

Ambos nasceram no JS e no Correio da Manhã, na sua melhor fase, e marcaram época. O Capitão Sol, por exemplo, certa vez quase o comprometeu com a censura pois retratava a figura de um presidente militar de então — um doublê de anarquista e bastardo, com forte vocação para superherói.

Capitão Cipó no livro Shazam! de Álvaro Moya - Editora Perspectiva - 1970

Por outro lado, Cipó era uma figura curiosíssima: de comportamento tropicalista, sofria de misoginia (fobia às mulheres) e andava quase sempre envolto num cinto onde havia de tudo, desde esparadrapos até pílulas anticoncepcionais. A crítica aplaudiu.

Daniel Azulay é um dos mais versáteis cartunistas brasileiros. Já mexeu praticamente com todas as formas de desenho. Dos jornais, Daniel Azulay passa para as revistas, na Rio Gráfica, cola bora em Querida e Garotas através do personagem satírico A Dama de Filó, com texto seu também. O Cruzeiro, no seu período áureo vem logo a seguir, em 1969, para onde foi levado pelo acadêmico Herberto Sales, na revista do “velho capitão” (Assis Chateaubriand), ilustra duas páginas à quatro mãos em parceria com Leon Eliachar. Nesse estágio fez charge política, caricatura e cartum. Em 1971, muda-se para a Bloch Editores para fazer capa de livro, ilustração e horóscopo, nas revistas JÓIA e Manchete.

Ilustração para a revista Mais, maio de 1974

Como tudo na vida tem seu momento de reflexão, Daniel Azulay dá uma parada para pensar. Associa-se com seu talento ao comércio e monta uma indústria de estamparia, permanecendo dois anos no negócio. Abre uma loja onde faz mil loucuras em silk screen, folhetos turísticos, mapas da cidade, selos e marcas diversas. Depois edita o livro “Viagem à Jerusalém”, com quarenta ilustrações em offset, que, segundo ele próprio, foi uma de suas mais proveitosas experiências no campo das artes gráficas.

Um pouco cansado da cena braileira e motivado pela viagem que fizera antes a Israel, ele resolve um dia arrumar as malas e sair em busca de novos horizontes. Destino: América. É Daniel quem fala de sua experiência e sobre o
que viu nos Estados Unidos.

— Inicialmente, como eu tinha um passe livre, percorri durante dois meses os estúdios de Walt Disney, na Flórida e na Califórnia. Lá, pude constatar em todos os departamentos aos quais tive acesso, que tudo é feito no mais alto nível profissional. Embora tenha mantido contato com os principais artistas do quartel general da Disney Productions — continua Daniel —, tais como os criadores do Fusca aloprado, Recruta Zero, Pinduca etc, ninguém me ofereceu a menor chance sequer. Motivo: “estrangeiro não entra”.

Depois de haver feito sucessivas tentativas entre abrir e fechar portas, em todas havia a proibição imposta pelos sindicatos, sobretudo a National Cartoonists Society, e seus agentes autorizados, os chamados (abomináveis)
“representantes”. Terríveis esses caras, afirma Azulay, eles barram mesmo e não deixam entrar de maneira nenhuma. Não há jeitinho que resolva, são pagos para defender a prata da casa. A única chance quem me deu foi Bob Kane, desenhista e autor de Batman, que me apresentou à revista CRAZY, de Nova Iorque, concluiu Azulay. Assim como agem os americanos, ele acha que o mesmo deveria ser feito no Brasil em defesa do artista nacional.

Para Daniel Azulay, a censura no Brasil é uma incoerência administrativa; enquanto fecha os olhos para certas coisas ao mesmo tempo abre para outras. Apesar de não ter nenhuma preferência especial pelos personagens que cria, pois cada um tem a devida importância, na sua opinião, Mafalda é o maior personagem do cartun internacional. E foi mais ou menos dentro desse pensamento que nasceu a sua Gilda — um tipo que reflete o comportamento das pessoas de hoje. Daniel Azulay argumenta contra a censura com muito trabalho e pouca crítica, principalmente quando se vive em
função do momento político. Ele é ainda autor do boneco “manequinho” que foi publicado muito tempo no Correio da Manhã. Apesar das limitações impostas a artistas brasileiros no exterior, ele já expôs em Nova Iorque. 

Tira distribuida pela ECAB.

No Brasil, tem seus trabalhos distribuídos pela Editora Carneiro Bastos - ECAB.

Ultimamente o cartunista carioca vem dando um recado particular às criancas através do programa “A Turma do Lambe-Lambe”, apresentado pela Tv-Educativa do Rio de Janeiro. O programa também é transmitido em dez estados por meio de uma rede de emissoras. No fundo, Daniel Azulay é uma criança travestida num aduIto de trinta e um anos. O sucesso do seu programa junto ao público infantil, ele explica de uma maneira muito simples através da carta que recebeu recentemente de um telespectador mirim. Disse-lhe o remetente: “você não usa fantasia”.

— Eis aí o segredo da fácil comunicação, diz Azulay, e o detalhe está em não mistificar, bancar o super-herói. Não apelar para frases feitas, na concepção do cartunista, nós somos para as crianças o seu irmão mais velho ou simplesmente um amigo delas. Para elas, devemos ser sinceros, absolutamente sinceros . E quem tiver consciência disso — lembra Azulay — só vai se dar bem com as crianças.

Na realidade se não fosse a equipe de oito profissionais que ocupa toda uma cobertura em Ipanema, onde fica o seu estúdio cheio de parafernália, e onde há, inclusive, um mico, um papagaio e um “pub” inglês, Daniel Azulay não seria o que é para atender aos inúmeros clientes entre revistas, jornais, agências e agora a televisão. De fato na Turma do Lambe-Lambe é a própria roteirista, o produtor musical, os desenhistas, o laboratorista e o coordenador de estúdio, que ainda produzem com um certo espírito artesanal o programa, para manter viva a alegria da garotada no ar.

Revista Manchete, março de 1976.

Agradecimentos ao amigo João Antonio Buhrer pelas imagens.

terça-feira, 25 de julho de 2017

Capitão Cipó - Correio da Manhã - 1968


Fruto da psicodelia e da liberação sexual, Capitão Cipó estreou em 1968 no jornal carioca Correio da Manhã. Influenciado pelos quadrinhos adultos que se expandiam pela europa, o Capitão é criação do hoje renomado cartunista Daniel Azulay.


De acordo com Ionaldo Cavalcanti em seu livro O Mundo dos Quadrinhos (Editora Símbolo - 1977): “Capitão Cipó - Criação de Daniel Azulay, apareceu no Correio da Manhã de 11 de janeiro de 1968 a 15 de março de 1969 em tiras diárias. Crítica ao super-heroi, à ‘ipanemia’ e a alguns valores culturais brasileiros. ‘Num bestialógico programa de televisão, Irineu Pedrosa, locutor nas horas vagas, é também um heroi nas horas difíceis. A primeira aventura do Capitão Cipó envolve complicações políticas e sexuais do planeta Sedan. Um dos melhores momentos do quadrinho nacional’ (Revista Vozes nº 4, maio 1971)”.


domingo, 23 de julho de 2017

Bastinho e Bastião - Folha da Manhã - 1937


Com o recrudescimento da censura imposta pelo governo de Getúlio Vargas, o cartunista Belmonte é obrigado a deixar de lado suas críticas políticas e passa a investir em novas temáticas, como a tira Bastinho e Bastião, publicada a partir de novembro de 1937 no jornal Folha da Manhã, em seu Suplemento de Domingo.

A série trata das aventuras de dois garotos em um ambiente meio rural e meio urbano, como era comum às cidades que passavam por rápido desenvolvimento no início do século XX.


Na Enciclopédia dos Quadrinhos, Goida e André Kleinert escrevem:

"BELMONTE - Brasil - (1896-1947)

Caricaturista, chargista político, ilustrador, historia­dor, escritor e jornalista, Benedito Carneiro Bastos Barreto foi um dos maiores nomes da comunicação visual brasileira nas décadas de 20, 30 e 40. 

Nasceu no dia 15 de maio e morreu em São Paulo no dia 19 de abril. Em 1912, já fazia caricaturas para a revista Rio Branco. Chegou a ingressar na Faculdade de Medicina, mas desistiu para seguir a vocação que o levava à imprensa. 

Adotando o pseudônimo de Belmonte, criou para os jornais Folha da Manhã e Folha da Tarde o personagem Juca Pato (1925). Baixinho, careca, usando óculos de aro de tartaruga e polainas, Juca representava o cidadão comum, tra­balhador, honesto, pagador de impostos, perplexo, irritado e às vezes apoplético contra os desmandos do custo da vida, da burocracia, da corrupção política e exploração do povo. Juca tomou-se um símbolo do homem comum que não se conformava com os que queriam espezinhá-lo. 

Durante o go­verno de Getúlio Vargas, principalmente depois da decretação do Estado Novo, Juca Pato teve muitas de suas charges censuradas. Belmonte, não poden­do criticar a realidade nacional, voltou-se contra o fascismo e o nazismo, o que também lhe valeu ameaças e tentativas de amordaçamento.

Como ilustrador dos livros de Monteiro Lobato, criou um universo que deliciava crianças e adultos, ajudando em muito aquele autor a se tornar um dos mais ven­didos no Brasil. Infelizmente, naquela época não pediram para Belmonte levar para os quadrinhos as histórias do Sítio do Picapau Amarelo. Aliás, ele trabalhava tanto nas suas especialidades, que não teve muito tempo para dedicar-se aos quadrinhos. Mesmo assim, colaborou para a edição infantil de 
A Gazeta, com a história Paulino e Albina (1935) - na verdade a dupla estreou em 1933. 


O curta-metragista Ivo Branco, que realizou um excelente documentário de doze minutos sobre Belmonte, passou quase cinco anos pesquisando os inúmeros trabalhos que ele deixou disperso pela imprensa nacional. Garante que um levantamento completo da obra de Belmonte certamente vai revelar tesouros não imaginados".


Paulino e (B)Albina em 1933 n'A Gazetinha.



sexta-feira, 21 de julho de 2017

Luiz Sá - Entrevista - 1978

Publicada na revista Traço, nº 2 em abril de 1979.

DEPOIMENTO

LUIZ SÁ - VOCÊ SE LEMBRA?

Henri Bon: Luiz, ficha completa.

Luiz Sá: Meu nome completo é Luiz Sá de Araújo. Nasci em 28 de setembro de 1907, dia do Ventre Livre, em Fortaleza, Ceará, que na época tinha menos de cem mil habitantes. Meu avô também se chamava Luiz Sá, era professor de desenho na escola normal e retratista muito bom. Não o conheci, mas havia um retrato seu em minha casa, de próprio punho. Eu perguntava à minha mãe se eram parecidos, ela dizia "meu filho, é o seu avô escrito". De fato era um grande desenhista.

Sou bisneto de índia pura chamada Main-chã-cha que morreu com 99 anos e me dava um grande pavor; já imaginou o que é isso, uma índia de 99 anos! Admito que minha avó tenha casado com algum mestiço de origem holandesa, já que temos na família primos morenos e loiros, tão claros que nós os chamávamos de "bodes loiros". Por isso que eu acho essa divergência de raças uma bobagem.

Cartazete educativo - 1953


Ildo: E sua família, era muito grande?

Luiz Sá: Eu tinha apenas um irmão, mas havia uma tia com 11 filhos e outra com cinco. Acho que éramos ao todo uns vinte primos.

Henri Bon: Quantos dessa turma, além de você, seguiram o desenho?

Luiz Sá: Ninguém. Tinha uma prima que desenhava muito bem, mas não era criativa. A coisa mais importante em nossa casa lá no Ceará, era a sala de jantar com uma mesa do tamanho de um bonde. Mamãe colocava todos os primos três vezes por semana para desenhar modelos, nesta mesa. Enquanto eles copiavam, eu desenhava Tom Mix e outros bichos e minha mãe dizia "voc~e não vai dar para nada, menino". Naquele tempo a caricatura era obscura, não havia no Norte. Além disso, eu havia nascido caricaturista e modificava os modelos, desenhava muito nas calçadas e de vez em quando alguém passava dizendo - "Esse menino está se perdendo aqui, vai para o Rio, menino".

Floriano: E você acabou indo...

Luiz Sá: Com 21 anos, final de 28...

Floriano: Para desenhar?

Luiz Sá: Que nada, era a última coisa que eu pensava. Vim para ganhar a vida. Tínhamos uma grande fazenda lá no Ceará, seis léguas de largura, mas na seca de 17 morria gente até em Fortaleza e minha mãe teve de vendê-la por qualquer tostão. Quando vim pro Rio, a situação não era boa. Desembarquei em princípio de 29, tava era... pasei foi miséria, acabei parando no Hospital de Gamboa com icterícia por excesso de álcool. Sabe como é, a gente sempre encontra alguém para pagar uma cana... eu ia bebendo.

Lá conheci uma freira, já idosa, que passou a gostar muito de mim. Não tinha visita nem carta e a distração era a conversa. Um dia ela me passa chorando pelo corredor e eu perguntei ao enfermeiro o que havia acontecido. Ele me disse "era um santo que quebrou". Fui lá, peguei o santo e fui ajeitá-lo. Depois encarnei, como dizia a minha mãe, "Santo não se pinta, se encarna".

Aí não tive mais sossego de tanto santo para restaurar que apareceu.

Aconteceu que o vigia da noite voltou para o exército, era época da revolução de 30, eu já estava bom e assumi o seu lugar. Não podia dormir, rapaz. Ganhava 60 mil réis e para passar o tempo ia desenhando. Fiz então uns quadros sobre a História do Brasil.

Floriano: Você já havia tido algum contato com a imprensa em sua terra?

Luiz Sá: Andei fazendo alguma coisa, muito raramente para o Jornal do Commercio, no ano de 28. Ainda, no Liceu, rabiscava um jornalzinho à mão, só um exemplar, que ía passando entre os alunos.

Henri Bon: Voltando ao hospital...

Luiz Sá: Fiz mais quinze quadros, mas o traço ainda não era este, depois aprimorei. Um dia mostrei a um pintor cearense, o Pacheco de Queiroz, que me disse "Ih, Luiz, isso é muito bom" e levou para o Adolfo Aizen. O Malho naquela época estava fechado pela revolução de 30 e eles haviam lançado outra revista com o nome de "Eu Vi". Bom, o Adolfo Aizen me procurou e disse "pago 10 mil réis por cada desenho, publico e devolvo o original".

Mais tarde ele me deu a ideia de criar no Tico-Tico uma história infantil. Eu publiquei então o Reco-Reco, Bolão e Azeitona de 1931 até 1960 quando fecharam a revista.

Tinha outros personagens que surgiram mais tarde, Maria Fumaça e Pinga Fogo, o detetive desastrado, para a Cirandinha, e Faísca, o papagaio.

Ildo: Você foi o primeiro brasileiro a fazer desenho animado. Conta essa história!

Luiz Sá: Eu desenho muito bem letras e por isso fazia as apresentações dos jornais cinematográficos. O rapaz com quem eu trabalhava me disse um dia "Ô Luiz, por que você não faz um desenho animado?".

Eu havia feito antes uns comerciais de cama patente em que o personagem jogava madeira por um buraco em uma grande máquina e a cama saía completa no outro lado. Fiz outro de um jogador de futebol correndo com a bola, de repente ele parava, com a mão na cabeça, chegava o massagista com um comprimido, ele tomava, continuava correndo e marcava o gol. Fiz um bocado desses. Resolvi então criar um maior, eram Aventuras de Virgolino, isso em 39, acabei deixando o filme em seu laboratório fechado pela guerra, onde estavam vendendo celulose. E o meu desenho lavado com ácido, acabou vendido como sucata (risos de indignação).

O segundo, vendi para o dono de uma loja de projetores que acabou cortando-o, oferecendo os pedacinhos como brinde a quem comprasse a máquina (mais risos de indignação). Há uns três anos atrás o Parrot localizou uns pedaços, utilizando-os em um curta metragem que fizeram sobre mim.

Ildo: Como era o processo, você fazia somente o desenho?

Luiz Sá: Não, eu fazia tudo, desenhos, animação, cores, até o cenário de fundo.

Ildo: Na década de 40 o Disney resolveu aparecer no Brasil em visita de "boa vontade", época em que criou o Zé Carioca. Ele não te tocou para participar do grupo de criação?

Luiz Sá: Não, Eu até levei o meu segundo desenho animado para uma reunião que o Disney havia feito aos artistas nacionais, mas o diretor do DIP impediu que eu mostrasse, dizendo que era muito pobre. É claro que era pobre, foi feito para mostrar o esforço de um sujeito que tinha feito sozinho, enquanto no exterior havia uma equipe para isto.

Ildo: Porque estava previsto, ou se pensava, que os artistas nacionais desenhariam o Zé Carioca...

Luiz Sá: O problema é que o Disney impedia a criação e todos os seus auxiliares tinham que desenhar igualzinho.

Davilson: Eu vou te explicar porque o diretor do DIP achou pobre: na época o Disney estava começando e não admitia concorrentes, haja visto o Latini (único cara que conseguiu fazer um desenho animado de longa-metragem no Brasil nos idos de 50) que foi boicotado porque o Disney estava precisando de mercado.

Henri Bon: A gente tem que considerar também que a vinda do Disney ao Brasil era uma jogada para ganhar o mercado latino-americano, já que o europeu estava fechado pela guerra. Portanto o Zé Carioca, uma vez perdida a utilidade, foi relegado a um segundo plano de onde jamais saiu. No fundo, era uma jogada financeira Disney-Rockfeller.

Henri Bon: Mas o Faísca é anterior ao Zé Carioca...

Luiz Sá: Sim, e tinha ainda um papagaio anterior, o Louro, que formava o trio com o Totó, o cachorrinho e Catita, o rato. Acontece que ficamos muito tempo no baú, já não dava para concorrer com os americanos pelo baixo preço.

Ildo: Na verdade, se alguém hoje tentar fazer uma animação em longa-metragem no Brasil, vai ser tão pobre quanto a trinta anos atrás. Um exemplo disso é o Piconzé, que levou dois anos (na verdade quatro) para ser realizado, feito no maior improviso...

Duda: Agora, Luiz, sobre exposições...

Luiz Sá: Andei fazendo umas e outras (ao fundo a voz do Davilson pedindo limão). A primeira foi logo em 31 sobre a história do Brasil, chamava-se "Galeria de quadros célebres da História do Brasil ao estilo moderno". Depois acabei fazendo outra, já em 34, levando para o nordeste, eram quadros regionais. Em 47 expus em São Paulo, assuntos de esporte e somente em 65 voltei a expor.

"DISNEY ATRAPALHAVA A CRIAÇÃO; TODOS TINHAM QUE DESENHAR IGUALZINHO"

March: E quanto a outras atividades...

Luiz Sá: Fiz dois livros somente com histórias de Reco-Reco, Bolão e Azeitona. Eles não eram assim. Costumo dizer que a gente sempre desenha melhor com o passar do tempo. Fui aperfeiçoando-me. O Bolão usava chapéu, tirei, acabei colocando uns fios de cabelo em sua careca.

Trabalhei também para o Serviço Nacional de Educação Sanitária, onde publicava aqueles almanaques de saúde. Um dia aparece um diretor querendo me exigir horário fixo, gritando comigo. Então eu lhe disse "Sou mais novo que o senhor e posso gritar mais alto" e dei um berro. Depois voltei para casa apresentando minha demissão. Ele escreveu uma carta ao Ministério dizendo que não poderia me dispensar, pelo esforço de guerra, mas não era nada disso. Acabei arranjando um pistolão para ser demitido. E fui para o cinema.

Floriano: Jornal da Tela?

Luiz Sá: E outros. Eu fazia uma charge sobre a notícia. Recebia a encomenda que às vezes aprontavam em um fim de semana para entregar na segunda-feira. Sobre esporte era ainda fácil, as sociais davam mais trabalho. Um dia o Luiz Severiano Ribeiro recebe uma carta de um industrial paulista, nem sei quem é, sem um pingo de senso de humor, reclamando de um desenho que eu havia feito de um cara olhando com uma lente para um caroço de feijão no fundo de um prato. Esta charge ilustra uma reportagem sobre o banquete de trezentos talheres que ele havia dado.

Ildo: E quanto à questão do direito autoral. Como se fazia naquela época?

Luiz Sá: Não havia isso. Era pelo desenho, a gente recebia na hora sem qualquer outro direito.

Eu estou lembrando agora de um episódio que me deu alguns trocados: eu havia desenhado na série "História do Brasil" um quadro sobre a fundação do Rio de Janeiro, em que, num prédio em construção, havia uma placa AQUI HÁ OTIS. Não fiz isso com maldade, mas o fato é que um diretor da empresa acabou gostando, comprou o quadro por cem mil réis e o distribuiu pelo mundo.

Ildo: Até alguns anos a estação das barcas mantinha algumas ilustrações suas. Que fim levaram aqueles quadros?

Luiz Sá: Não sei. Foram talvez estragados pelo tempo. Ainda me lembro que um capitão teve a idéia de substituí-los periodicamente por outros que eu iria fazendo. Mas sabe como é, foi ele que acabou substituindo a idéia engavetada e nunca mais falou no assunto.

Henri Bon: E sobre uns slides educativos que você andou fazendo?

Luiz Sá: Vim pra São Gonçalo há 8 anos e depois de velho acabei tuberculoso, ficando internado mais de uma ano. Aí o Dr. Ataídes me pediu para fazer uns desenhos sobre doenças e suas causas. Eu fiz uns cinquenta, mas só tenho metade comigo. Quem tem a série completa é o Hospital Heitor Carrilho.

March: Quais os seus últimos trabalhos?

Luiz Sá: Bem, eu fui procurado por algumas pessoas ligadas ao partido do Governo para fazer umas ilustrações em propaganda eleitoral. Felizmente trabalho remunerado. Tenho trabalhado também desde abril em alguns álbuns que quero deixar para minha família.

Ildo: Luiz, quando você parou e por que?

Luiz Sá: Quando fechou O Malho em 1960. Bem, eu ainda continuei no cinema até 65, fazendo apresentações para filmes e telejornais, quando trabalhei com Reginaldo Farias e Jece Valadão. Depois veio o Castelo com essa história de retirar a obrigatoriedade de apresentação do curta-metragem. O cinema pagava razoavelmente bem e de uma hora para outra perdi o emprego. Foi-se o meu padrão de vida que diga-se de passagem era muito bom.

Andei por 1966 fazendo alguns desenhos de apresentação para o programa de Heron Domingues na TV Continental. E depois, nessa época eu morava em Paquetá, e quem mora em Paquetá não quer nada com o trabalho, sabe como é que é...

Atualmente Luiz Sá, afastado de toda atividade profissional, repousa dos anos de luta recolhido em uma pequena reidência em São Gonçalo, que de modo algum faz juz à genialidade de quem foi o pioneiro do desenho animado no Brasil.


Fomos encontrá-lo às 10:43h do dia dois de fevereiro de 1978. Presente Henri Bon, Ildo Nascimento, Levy Szmaragd, Marcus César, Duda, march, Fernando Nunes, Rossini, Floriano, Davilson e Júlio César Valadão Diniz.

Tomamos de assalto a casa, munidos de cachaça, violão, filmadora, gravadores e máquinas fotográficas, com o objetivo - dentro de nossas limitações - de traçar um retrospecto de sua vida artística, que atravessou quatro décadas ininterruptamente.

Convite para a exposição Cartuns Cinematográficos. 1994


Abaixo, matéria sobre a exposição "Cartuns Cinematográficos" publicada na Folha da Tarde em 30.9.1994.


RIO VÊ A OBRA DE LUIZ SÁ PARA O CINEMA 

Quem conhece apenas as histórias em quadrinhos de Luiz Sá terá uma agradável surpresa ao visitar a exposição Cartuns Cinematográficos, inaugurada ontem no na Galeria Sérgio Milliet, no Rio. A mostra comemora o 55º ano do aparecimen­to dos cartuns do artista em cinejornais brasi­leiros, reunindo 90 trabalhos, en­tre originais, reproduções foto­gráficas e carta­zes. A ligação do cartunista com o cinema não pára por aí.

Além de ter feito um desenho animado, que também será exibido na exposição, Luiz Sá é o autor do bonequinho de críticas cinematográficas do jornal O Globo, que até hoje indica a cotação dos filmes em cartaz.

A primeira vez que um cartum de Luiz Sá ilustrou um ci­nejornal foi em 1939, em O Globo Esportivo na Tela. Os originais desses cartuns, que sa­tirizavam as notícias sociais, políticas e esportivas veicula­das nas telas podem ser vistos na exposição. Reproduções fo­tográficas dos cartuns apresen­tados entre as décadas de 50 e 60 em Esporte na Tela e Notí­cias da Semana, jornais cine­matográficos da Atlântida, também estão na mostra.

Uma das pre­ciosidades da ex­posição é a exibi­ção em vídeo de uma cópia do se­gundo desenho animado de Luiz Sá, Aventuras de Virgolino, da década de 30, que se acreditava perdida e foi en­contrada este ano em acervo particular. Serão exibidos também em vídeo um documentário sobre o artista e de­poimentos do cartunista Cau­lus sobre Luiz Sá. Cartazes de filmes publicados nos anos 40 na Revisia da Semana e Careta, caricaturas que fez para a revis­ta Cinearte e alguns originais dos bonequinhos cinematográ­ficos do jornal O Globo também podem ser vistos. Luiz Sá, mor­to em 1979, foi o único carica­turista do País a realizar car­tuns para cinejornais.

Roberta Jansen/AE

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Hur no Continente Perdido - A Nação - 1963


Humberto H. Ramos, o primeiro astronauta brasileiro, em sua missão de estreia, sofre um acidente e acaba caindo em um continente perdido, habitado por tribos de pigmeus e feras pré-históricas. Esse é o mote de Hur, criado por Wilson Fernandes e publicado pela primeira vez no jornal A Nação em 1963 e 1964.

A Nação foi um jornal paulistano que circulou no início da década de 1960 e que tinha uma boa sessão de quadrinhos, editada por Luís Sanches.



Hur foi um dos muitos tarzanides brasileiros, como Targo e Tarum, com acentuada influência do personagem Tor de Joe Kubert e Thun'da de Frank Frazetta. Foi publicado posteriormente na revista Magia Verde da editora Pan Juvenil/Edrel em 1965 e teve revista própria pela editora Bentivegna. A editora Pan Juvenil aproveitou vários dos clichês tipográficos usados por Luís Sanches em A Nação para produzir suas primeiras edições.



Sobre Wilson Fernandes ficamos sabendo no site Guia dos Quadrinhos que: "Desenhista e editor brasileiro, já falecido. Nos anos 60, trabalhava na editora Pan Juvenil, dos irmãos Bentivegna, onde conheceu artistas como o então iniciante Minami Keizi, em 1964. Este tentou convencê-lo a publicar mangá, sem sucesso. Fernandes achava, com razão, que a moda nos quadrinhos era outra. Assim, na segunda metade dos anos 60 já pela editora Taika, Fernandes escreveu e desenhou, influenciado pela explosão dos super-heróis no Brasil, os três primeiros números do "Escorpião", um novo herói brasileiro, e a edição única de "Bola de Fogo" (1967)...


...Franco de Rosa lembra que Fernandes era um notório “homenageador” de HQs. “Há dezenas de HQs dele, imitando o estilo de Hugo Pratt, Breccia, Joe Kubert e outros tantos”.

Revista Hur nº 01 - editora Bentivegna

Hur na revista Magia Verde nº 01 - editora Pan Juvenil - 1965



segunda-feira, 3 de julho de 2017

Capitão Cometa - A Nação - 1964

Capitão Cometa foi publicado em A Nação no ano de 1964.


A Nação era um tabloide paulistano das empresas O Esporte e A Hora que circulou entre 1963 e 1964, tendo como diretor-presidente J. B. Viana de Morais, como redator-chefe Nabor Caires de Brito e como editor de arte Luís Sanches.

Capitão Cometa teve revista própria pela editora Pan Juvenil, que viria a se transformar na Edrel. Segundo Gonçalo Silva Jr. em seu livro Maria Erótica e o Clamor do Sexo: "Minami criou suas duas primeiras revista: Piadas Populares e Capitão Cometa, ambas a partir dos clichês de Sanches. Capitão Cometa era uma tira diária de um curioso super-herói desenhada por Fernando de Almeida. Saiu apenas um número da revista, em formato reduzido, quase de bolso, que trazia na capa e dentro a marca Minami Keizi Produções".

Duas capas de Fernando para a editora Pan Juvenil.

Na apresentação da revista podemos ler: "Estamos penetrando num mundo fantástico da ciência, num mundo onde tudo pode acontecer e vamos conhecer o Capitão Cometa, rei do espaço. Capitão Cometa cruza o universo encontrando no seu trajeto as mais estranhas aventuras, defendendo os fracos e oprimidos, tornando-se assim um herói do espaço. A sua nave carrega o símbolo da justiça. Piratas e bandoleiros do espaço temem-no pois seus punhos justiceiros estão sempre ao seu encalço. E assim... estamos entrando num mundo de amanhã seguindo o valoroso Capitão Cometa...".

Sobre Fernando de Almeida pouco se sabe. Segundo o site Guia dos Quadrinhos: "Desenhista e publicitário brasileiro, cuja carreira nos quadrinhos começou nos anos 60. É mais lembrado por fazer a arte-final de muitas histórias em quadrinhos produzidas pelo estúdio de Minami Keizi, em São Paulo. Esses quadrinhos eram uma atividade paralela, que Almeida fazia à noite, após o expediente na J.W. Thompson". Fernando frequentemente trabalhava em parceria com José Carlos de Almeida.

Fernando e José Carlos de Almeida na revista Estórias de Guerra nº 01 - 1966

sábado, 1 de julho de 2017

Adolfo Aizen - Entrevista - 1972

Esta é a entrevista com Adolfo Aizen publicada n'O Pasquim em março de 1972.

AS AVENTURAS DE ADOLFO AIZEN

Qual a idade das Histórias em Quadrinhos? Os mais eruditos acham que tem 31.972 anos (foi mais ou ­menos nessa época que os paleolíticos rabiscaram uns troços na gruta de Pech-Merle), mas o certo mesmo é 77, porque só em 1895 surgiu a primeira história em quadrinhos com as características básicas do gênero: Yellow Kid (O Garoto Amarelo), de Outcault. Ah! - dirão vocês - O PASQUIM está comemorando os 77 anos dos quadrinhos. Nada disso. O nosso bolo marca 38 anos.

Ah! - dizemos nós - a nossa festa é pra comemorar os 38 anos das histórias em quadrinhos no Brasil. Foi em 1934 que um baiano de Juazeiro, chamado Adolfo Aizen, lançou o Suplemento Juvenil. Aizen está hoje com 64 anos e ainda acredita que o Super-Homem existe (o que não é vantagem, porque nós - com a idade variável entre 25 e 40 anos - também acreditamos que Robin se chama, na realidade, Maria Montez.

Além de Adolfo Aizen e comensais menos expressivos; como Mandrake, Flash Gordon, Fantasma, Espírito (foi impossível evitar os penetras), nossa festa tem outro convidado de honra: André Le Blanc, um dos maiores desenhistas de quadrinhos do Brasil e do mundo - e, claro, o melhor do Haiti -, que muito fez, e vai continuar fazendo, por essa glória da cultura ocidental que é o gibi.

A esta altura, vocês estão curiosos pra saber por que estamos comemorando uma data fora de época (por que não esperar os 40 anos?, por que uma semana de atraso se o primeiro número do Suplemento Juvenil saiu no dia 14 de março e hoje já é 21?). Coincidência: nós também não sabemos. 

Sérgio Augusto - Há 38 anos, você lançou o Suplemento Juvenil no jornal A Nação. Como é que surgiu a idéia de fazer o Suplemento?

ADOLFO AIZEN - Eu trabalhava, nessa época no jornal A Ordem, do Mattos Pimenta, onde comecei como repórter e depois passei a secretário, e ainda como redator d'O Malho e Tico Tico. Já no Tico Tico eu achava que as histórias que eles publicavam eram muito infantis e que havia um público juvenil a ser aproveitado. (1)

Ziraldo - Já havia então histórias em quadrinhos no Brasil antes de 1934 ou era só no no Tico Tico?

AIZEN - Não. Havia histórias para crianças. Havia o Juquinha. Houve uma tentativa do Cômico Infantil, que não foi pra frente. Os desenhistas da época, como Max Yantok, Storni e outros, faziam histórias infantis. Mas faltavam as histórias de aventuras para o público juvenil. Nem mesmo nos EUA havia histórias de aven­turas. Quando eu fui a Nova York, em 1933, a época áurea dos quadrinhos estava começando.

Ziraldo - Você foi pros EUA por causa disso ou por outras razões?

AlZEN - Eu fazia parte do Comitê de Imprensa do Touring Club do Brasil e o Touring a me arranjou uma excursão aos EUA. Chegando lá eu encontrei o Flash Gordon em grande parada e aí me ocorreu publicar suas histórias no Brasil. Eu visitei a redação do Daily News e outros jornais do grupo Hearst e voltei com a ideia dos quadrinhos na cabeça. Chegando aqui procurei o Luís Peixoto, pra que ele me levasse ao João Alberto, que era dono do jornal A Nação, e o João Alberto me deu  plena liberdade pra eu fazer o que quisesse. Aí então eu tive a ideia de fazer os suplementos semanais. Um deles era o Suplemento lnfantil, que passou depois a Juvenil.

Ziraldo - E como é que foi feita a importação das histórias?

AIZEN - Havia aqui um representante da King Features, (2), o Arroxelas Galvão, que ti­nha todas aquelas histórias jogadas no escritório e ninguém queria publicá-las. Quando eu o procurei, ele me deu todo o estoque que tinha ­- mais de três anos de histórias de Flash Gordon, Mandrake - todas de graça, contanto que, dali em diante, eu pagasse a ele 20 mil réis por página.

Jaguar - Quando você esteve nos EUA conheceu pessoalmente o Alex Raymond? (3) 

AlZEN - Conheci ele ali na redação, traba­lhando com todo aquele grupo que fazia o serviço. Os outros desenhistas, né?

Sérgio Augusto - O Suplemento, como suplemento do jornal A Nação, teve 15 números. Depois, ele passou a sair independentemente, em tamanho maior e a cores. Essa jogada sua, pessoal, contribuiu como semente da EBAL?

AlZEN - O Suplemento, como suplemento de A Nação, durou esses 15 números e vendia mais que o próprio jornal. O jornal era comprado nas bancas, colocado de lado e o Suplemento era Ievado pra casa. Quando me separei do jornal, levei comigo todos os suplementos: o Infantil, o Policial e o de Humor, que era, na época, um concorrente do PASQUIM de hoje. Tínhamos grandes humoristas como o Théo e o Nássara. Saí com os suplementos e formei uma empresa comercial com o nome de Consórcio Suplementos Nacionais.


Chico Forófia por Théo.

Ziraldo - E o João Alberto continuou também na jogada, não?

AIZEN - O João Alberto veio comigo. Ele e mais uns três amigos. O João Alberto foi sempre muito compreensivo, e via que o Maciel Filho, que era diretor d'A Nação queria o Suplemento. Mas ele criou amor pelo Suplemento e muita mais por mim, por isso, ele ficou comigo.

Ziraldo - E aí a venda do jornal caiu? 

AIZEN - A Nação fechou algum tempo depois e o Supemento Juvenil continuou mundo afora. Mas ainda sobre o João Alberto eu queria dizer mais coisas. Ele era sobretudo um homem de negócios que sabia ser diplomata. Foi o primeiro embaixador do Brasil no Canadá. Era um homem muito grande. Ele fez uma missão que ficou famosa e também fundou uma cidade no interior do Brasil, Aragarças. Ele quis entrar pelo Brasil adentro, depois pacificou índios. Foi um bandeirante fora do tempo.

Jaguar - E aí então você ficou só com os três suplementos ou mais algum?

AlZEN - Não, cinco suplementos: um por dia. Mas as coisas não estavam boas pros outros suplementos. O único que estava bem - bem mesmo - era o Juvenil, que já era Juvenil naquele tempo.

Ziraldo - E qual era a tiragem? 

AIZEN - 70 mil, a 200 réis.

Ziraldo - Quantos anos durou o Suplemento Juvenil?

AlZEN - 10 anos. 

Fortuna - Ele revelou logo desenhistas brasileiros ou começou só usando estrangeiro? 

AlZEN - Eu fiz um concurso pra desenhistas brasileiros e apareceram muitos, e entre eles, foi escolhido o Fernando Dias da Silva, que hoje está nos EUA. Eu mandei buscar ele no Maranhão. Mandei passagem e tudo. Ele trouxe a mãe dele, móveis, tudo. O prêmio do concurso era de 500 mil réis. Nesse concurso também se revelou o cunhado dele, e ainda o Celso Barroso e o Antonio Eusébio.




Ziraldo - E o Sálvio (Correia Lima de Negreiros)?

AIZEN - É, o Sálvio. Ele fazia história de aventuras. Mas eu procurava fazer mais. Sempre fui contra a criação de personagens brasileiros, quer dizer, de aventuras. Eu achava, e ainda acho, que o desenhista brasileiro deve desenhar coisas brasileiras. Por isso que eu publico aqui as grandes figuras do Brasil, os fatos históricos do Brasil e os romances brasileiros. Eu acho que nossos meninos devem fazer coisas nossas e deixar que essas coisas de Tarzã, Flash Gordon, sejam feitas no estrangeiro.




Ziraldo - E o herói mascarado brasileiro, ninguém acredita muito nele, né?

AIZEN - Não creio, não creio.

Jaguar - Já imaginou o Fantasma morando em Nova Iguaçu?

Sérgio Augusto - E usando uma fantasia impermeável e sanforizada comprada na Casa Tavares! Num dá...

AlZEN - Vejam vocês: já naquela época, eu fazia sempre temas brasileiros pra mostrar a capacidade do desenhista brasileiro. Se eu faço hoje um concurso dando como tema livre, qualquer coisa, eles me fazem só histórias de faroeste! Então, as histórias de faroeste são cópias uma das outras. Agora mesmo eu falava aqui com o Sérgio Augusto sobre um concurso que nós fizemos a propósito da Independência do Brasil. Oferecemos um prêmio de 5 mill cruzeiros pro primeiro coIocado. O tema, claro, é a lndependência do Brasil. Ele pode fantasiar a história como quiser, mas eu faço questão que ele se atenha à Independência, àquela época, aos seus costumes. 

Ziraldo - Agora, em que data você fez aquele famoso concurso sobre o tema da Retirada da Laguna, em que apareceram aqueles meninos todos: o Antonio Eusébio, o Fernando? Con­vém informar aos leitores que eu conheci Fer­nando, Sálvio e Celso, junto com Monteiro Fi­lho - que são os quatro maiores ilustradores que já apareceram depois na publicidade brasi­leira. Tirando Monteiro, todos ficaram na publicidade, né? Sálvio parece que ficou em São Paulo e não está mais mexendo com isso. Mas Celso e Fernando estão nos EUA, sendo que do Fernando eu recebi um folheto uns anos atrás chamando ele de The Golden Brush, "O Pincel de Ouro", hoje ele é um dos grandes ilustradores dos EUA. Mas, Aizen, em que ano eles começaram?




AIZEN - Eu acredito que o concurso tenha sido em 1940 porque foi na época da guerra, logo no primeiro ano. Tanto que o Sálvio e o cunhado dele só conseguiram chegar ao Rio vindo pelo interior em cima de caminhões.

Ziraldo - E aquela história dos meninos do Pedro II?

AIZEN - Ah! eu quando fiz o Suplemento Juvenil, independente, eu percebi um movimen­to. Aí veio aquela meninada do Pedro II se ofe­recendo pra trabalhar comigo, assim, voluntariamente. E desses meninos todos sobressaiu o Renato De Biasi. E vários outros que hoje são engenheiros e médicos, né? Me lembro do Edson Garcia, que é médico, e do Rosólio de Azevedo, que é engenheiro.

Ziraldo - E teve ainda o (Francisco) Acquarone, que de­pois ficou famoso no rádio. O Hélio Soveral, também. E o Pedro Anísio aqui presente.


O Guarany por Francisco Acquarone - 1937


AIZEN - E até hoje o Pedro Anisio escre­ve histórias pra gente. Só de assuntos brasileiros.

Caulos - Esse concurso da Retirada da La­guna foi feito uns seis anos após o lançamento do Suplemento Juvenil. O que eu quero saber é o seguinte: até que ponto esses desenhistas revelados pelo concurso foram influenciados pelos estrangeiros? Digo isso porque o ganhador, por exemplo, é muito influenciado pelo Alex Raymond.

AlZEN - Sim, influenciado. O Fernando era muito influenciado pelo Raymond. Eu tenho até o primeiro quadro que o Fernando desenhou pro Suplemento Juvenil, a óleo. Você precisa ver que beleza, feito ainda em 1939, 40, mais ou menos por aí. Era uma ilustração da Guerra Holandesa pra um livro que eu tinha mandado fazer.

Sérgio Augusto - Convém lembrar aqui que, além de todos esses desenhistas, o Suplemento Juvenil, que publicava não apenas quadrinhos, mas também contos e crônicas, revelou muita gente famosa, como autor de contos, historietas, ou simples leitores. O Naumin fez uma pesquisa a respeito e descobriu gente como Pedro Bloch, Emilinha Borba, Bidu Reis, Lidia Matos, Mário Brazini, Nathalia Timberg (que trabalhou numa peça patrocinada pelo Suplemento, A Nova Gata Borralheira), e até Dalton Trevisan, premiado por um conto. Chuta Fortuna!

Fortuna - Aizen, quais foram os principais heróis lançados pelo Suplemento?

AlZEN - Começamos com Flash Gordon, Mandrake, Brick Bradford, Tarzan, Tim & Tom.

Fortuna - Boa. Os clássicos das histórias em quadrinhos me parece que eram seus e depois passaram pra Rio Gráfica. O que que houve nisso aí?

AlZEN - Essa é uma história muito complicada. Deu muito bode naquela época. Hoje está esquecida, ultrapassada. Mas naquele tempo aconteceu o seguinte: eu fui pros EUA e fiz umas reportagens pr'O Globo. Eu me dava muito com o Roberto Marinho. Quando voltei de lá, eu disse a ele que tinha vontade de fazer uma revista. Nova. Só pra crianças. No gênero que eu estava calculando o Suplemento Juvenil. Ele me disse que isso não interessava ele não.

Ziraldo - Foi quando?

AIZEN - 1933. Eu então falei com o João Alberto. Quando o Suplemento estava com 70, 80 mil exemplares - isso na venda avulsa, que era muito grande pra época (o Tico Tico tirava 15 mil exemplares e era grande tiragem) - então O Roberto Marinho mandou dizer que queria falar comigo. Eu fui à redação e ele me disse que soube que eu estava tirando de um jornal meu 70 mil exemplares e se era verdade. Eu disse que era. Então ele me disse que estava interessado em fazer também uma revista do mesmo gênero e perguntou se eu queria me aliar a ele. Eu disse que não porque já estava trabalhando com o João Alberto. Então ele me disse: "Bem, se você não pode, então eu vou fazer sozinho". E aí eu respondi: "Tá bem, eu vou até lhe ajudar''. A coisa chegou a esse ponto de eu querer ajudá-Io. Tanto que ele me perguntou depois o que eu achava do nome Rataplan. Eu disse que Rataplan era um nome bonito pra um jornal pra crianças. Mas, uma semana depois, o jornal O Globo noticiava que ia publicar O Globo Juvenil. Ora, a palavra juvenil tinha sido usada pela primeira vez, por mim. Porque na­quele tempo só se conhecia juvenil de futebol, né? Eu usei em imprensa. Tinha feito registro. Eu achei que era um desaforo esse negócio de usar o juvenil, justamente na hora em que o nosso suplemento se tornava conhecido.Mas ele publicou o Globo Juvenil e nós fizemos uma questão judicial.

Ziraldo - Você ganhou?

AIZEN - Não ganhei. Ficou sendo pra to­dos, né?

Ziraldo - E os personagens, ele ficou com outros ou com os mesmos que você publicava?

AIZEN - O Arroxelas Galvão, representante da King Features no Brasil, tinha feito contra­tos anuais daquelas histórias comigo. Ele sempre prorrogava o contrato naturalmente. Então, certa vez, quando terminou o contrato, ele me disse que ia passar o contrato pro Roberto Ma­rinho. Aí eu disse: "Isso não se faz''. E ele disse: "É, eu acho isso mesmo. Não se faz isso não. Se eu fizer um dia, você pode me dar um tiro". E voltou a fazer o contrato comigo. Mais um ano. Antes de terminar o ano, ele me pediu um dinheiro adiantado. 30 contos de réis. Queria completar o dinheiro pra compra de uma casa. Eu disse que não podia adiantar esses 30 contos. E O contrato passou, automaticamente, pro Roberto Marinho.


Carlos Arthur Thiré - O Gavião de Riff


Jaguar - Eu acho que não são 30 contos não. São 30 dinheiros.

Sérgio Augusto - Ah, um epísódio eminen­temente bíblico!

Ziraldo - Então você ficou com o Suplemento sem esses heróis?

AIZEN - Exato. Mas eu fui muito honesto no meu modo de agir, porque eu, sabendo que os leitores queriam a continuação daquelas his­tórias - de onde pararam comigo e passaram pro outro -, eu anunciei embaixo: "A continuação dessas histórias os leitores poderão encontrar no Globo Juvenil". Eu achei que os meus leitores mereciam isso.

Ziraldo - Mas o seu Suplemento caiu de tiragem com a perda desses heróis?

AlZEN - Não. Continuamos com outras coisas, inclusive o Super-Homem, que veio logo em seguida como novidade. Além disso, as histórias em continuação já estavam caindo de moda. Então nós passamos a fazer o Lobinho, continuamos com o Mirim, o Suplemento, o Suplemento Policial, Contos Magazine. Nessa época, já tinha oficina própria, na rua Sacadura Cabral, 43, onde hoje é o Bar Jardel uma coisa assim. Aquele edifício todo era nosso também. E tem um detalhe: o Lobinho foi a primeira revista de quadrinhos brasileira com histórias completas.

Jaguar - Foi você que descobriu esse nome de Lobinho?

AlZEN - Foi. Porque eu pensei que quando O Globo brigou conosco eles iam chamar a re­vista deles de Globinho. Então, antes que eles chamassem de Globinho, eu chamei de Lobinho. Eu registrei logo o nome.

Ziraldo - Você editou histórias em quadrinhos com essa fé toda numa época em que ela era muito combatida por pedagogos e educadores. Eu me lembro que o padre da minha terra me proibiu de ler quadrinhos quando eu era menino. Como é que foi que o senhor en­frentou essa briga?

AlZEN - A primeira campanha contra os quadrinhos veio dos padres. Houve um padre, numa cidade de Minas Gerais, que fazia uma campanha sistemática no jornal dele dedicando toda a primeira página do jornal católico contra as histórias em quadrinhos. Isso foi por volta de 1937 e 39. 

(E eis que entra em cena Vão Gogo, sob o seu disfarce habitual de Millôr Fernandes, o guardião dos maus costumes).

Sérgio Augusto - E mais uma vez o mundo se curva diante do Brasil. Nos EUA as campanhas sistemáticas contra os quadrinhos só começaram 10 anos depois, quando o idiota do prof. Fredric Wertham publicou o livro A Sedução do Inocente, caindo de pau nos comics.

Ziraldo - Aizen, como é que você enfrentou a guerra? Com as Edições Maravilhosas?

AIZEN - Justamente. Meu pensamento foi: se a história em quadrinhos é um material bom precisamos e devemos aproveitar os quadrinhos para o lado bom. Foi então que comecei a fazer histórias brasileiras e, mais tarde, entrei na Série Sagrada, que são as histórias de santos da Igreja, a Bíblia, tudo em quadrinhos. Os romances estrangeiros publicados pelas Edições Maravilhosas nós comprávamos nos EUA. Logo em seguida, comecei a fazer os romances brasileiros do José Lins do Rego, Heberto Sales e os demais. Do José de Alencar eu quadrinizei tudo.(4)

Antonio Euzébio na Série Sagrada.

Millôr - Qual é o volume de material brasileiro que você hoje usa em relação ao estrangeiro?

AIZEN - A base continua sendo 20%, só. 80% é estrangeiro.

Millôr - Por que?

AIZEN - Bem, porque nós fazemos assuntos brasileiros. Não fazemos personagens brasileiros. É bem verdade que nós lançamos agora o Judoca, que já está com 20 ou 30 números, uns três anos já. Judoca é um personagem brasileiro. Foi uma idéia minha que o Pedro Anísio desenvolveu.

Millôr - Você então chegou à conclusão de que o herói de quadrinho brasileiro é mais subdsenvolvido que o país?

AIZEN - Não, não tem nada a ver uma coisa com a outra. Acontece que os personagens estrangeiros, vejam bem: os que vendem hoje são aqueles que começaram a 30, 40 anos passados. Flash Gordon, Tarzã, Mandrake.

ZIRALDO - Eu não concordo, não. Porque, por exemplo, a experiêncla da Mônica, do Mau­rício de Sousa, é um sucesso e minha expe­riência com o Pererê não fracassou por impossibilidade do herói brasileiro pegar, não. Ela fracassou por outras razões. Porque eu não conseguia concorrer em preço com o material estrageiro importado. Por isso é que eu não pude continuar.

Sérgio Augusto - Os jornais pagam uma ninharia que, pro King Features, que arrecada em todos os jornais do mundo, é uma nota.

Fortuna - Eu acho que o problema básico dos quadrinhos aqui não é de pessoas, de dese­nhistas, de personagens. O problema é distribuição. Porque não é econômico fazer uma história em quadrinhos pra uma publicação. O desenhista americano trabalha pra sindicatos. Suas tiras são distribuídas no mundo inteiro. Então ele pode viver exclusivamente do seu trabalho. Aqui não existe sindicato especializado como nos EUA. Mas eu queria perguntar pro Aizen por que ele, trabalhando há tanto tempo no ramo, não faz distribuição de material nacional pro exterior, assim nesses moldes dos sindi­catos?

AIZEN - Para onde você acha que eu deve­ria fazer essa distribuição?

Ziraldo - Para os países da América Latina e as colônias portuguesas da África.

AIZEN - Mas nós vendemos em Angola revistas prontas. O que nós vendemos em Portugal é muito mais do que a quantidade de revistas feitas lá mesmo. Eu acredito que, dentro de cinco anos, os meninos portugueses falarão me­lhor o português mais brasileiro que o de lá, porque eles estão lendo o nosso.

Ziraldo - Você vende quantos mil exem­plares, por mês, para Portugal?

AIZEN - Zorro, que vende mais, está com quatro mil exemplares em Portugal, o que é uma bela tiragem.

Sérgio Augusto - Quantas revistas a EBAL tem hoje?

AIZEN - 30 revistas por mês. Mais do que uma por dia. Nós só trabalhamo 20 dias por mês.

Sérgio Augusto - E a tiragem média de cada uma ou a global?

AIZEN - A global chega a quase dois miIhões de exemplares. As que mais vendem são Tarzã, Zorro, Superman e Batman. Depois vêm as revistas de faroeste. As revistas infantis caíram muito.

Millôr - Tem aí uma coisa muito reacionária: os grandes heróis continuão a ser os heróis velhos. Não há Poder Jovem nas histórias em quadrinhos?

AIZEN - Tem a Turma Titã, mas os heróis mais procurados mesmo continuam sendo os ve­lhos.

Ziraldo - Agora, Aizen, por que que fechou o Suplemento Juvenil, o Mirim e O Lobinho? Por que, como e quando acabaram os suplementos?

AIZEN - Quando o Brasil entrou em guerra eu comecei a ter dificuldades de comprar papel. O papeI só havia aqui pro jornal ofícial que era A Noite, naquela época. O papel vinha do Paraná, de uma fábrica que as Empresas lncorporadas do Patrimônio da União tinham lá. Eu então resolvi, com as dificuldades financeiras que passava na época, embora com máquinas próprias e tudo aquilo, os navios brasileiros torpedeados e eu sem papel - bem, aí eu resolvi me ligar à empresa A Noite, que era então a mais poderosa. E o coronel Costa Neto comprou então a nossa empresa Suplemento Juvenil ou Grande Consórcio. E eu passei só à direção daquilo. Aí não me faltou mais papei. Mas quando terminou a guerra, em 45, pedi demissão da direção do Grande Consórcio, deixei ali um salário que, naquela época, era grande (seis contos de réis), e fui fazer a Editora Brasil América.

Ziraldo - E o Mirim e O Lobinho ficaram com eles lá?

AIZEN - Ficaram e fecharam. A Noite e as revistas. Tudo, né?

Ziraldo - A primeira revista da EBAL foi O Herói, não foi?

AIZEN - Foi. E até hoje ela dura, só que sem aquela capa em marrom de que você tanto fala e sem aquelas histórias da Ginger, do circo etc.

Jaguar - Agora, essas histórias mais modernas como as do Stan Lee, elas são mais sofisticadas, mais trabalhadas, os heróis são neuróticos. Isso não fez mudar o público dos quadrinhos? Isso se refletiu na venda?

AIZEN - Os heróis, mesmo os mais antigos, estão mudando muito. Eles agora estão se adaptando à época, ficaram mais humanos, mais neuróticos, têm até espinhas no rosto.

Sérgio Augusto - E essa onda toda que os intelectuais criaram en torno dos quadrinhos como um troço sério, isso mexeu com a estrutura do seu negócio?

AlZEN - Não há dúvida que o público hoje é mais adulto, especialmente o das revistas de aventuras.

Millôr - Isto é bom ou é mau?

AlZEN - Mau. Preferiria que as crianças continuassem sendo o meu público em potencial porque acho que elas se tornam adultas lendo histórias em quadrinhos. As nossas tiragens, de uns cinco anos pra cá, estagnaram.

Fortuna - A Editora está pensando em algum lance novo pra pegar de volta esse público infantil?

AlZEN - Estou editando livros e revistas para crianças. São a esperança e o futuro daqui. São livros sobre heróis, Branca de Neve, histórias de Malba Tahan, Stella Leonardo e Murilo Araújo. Leitura pra crianças. Espero que isso desperte interesse.

MiIlôr - Quando nós fundamos O PASQUIM, nós chegamos a vender 195 mil exempIares. Ele tinha um imenso público de crianças de 12, 13, 14 anos que liam o jornal. E liam exatamente porque O PASQUIM era um jornal iconoclasta. A partir do momento em que O PASQUIM, de uma certa maneira, diminuiu sua agressividade, esse tipo de público desapareceu. Isso não é uma prova de que as crianças estariam exigindo um tipo novo de histórias em quadrinhos, reexaminada, realmente mais madura, em que não se omitisse nada?

AlZEN - Não sei, não posso dizer.

Jaguar - Você não acha que a desmistificação que a revista Mad fez dos heróis, ridicu­larizando eles todos, não foi também responsável por esse desencanto pelos mocinhos dos quadrinhos?

AlZEN - Claro. Felizmente, o Mad vende pouco no Brasil. Mas as crianças acreditam ain­da nos heróis. Ainda há pouco recebi uma carta de um menino que se diz fã do Homem-Aranha e quer uma fantasia igual à dele. Cartas como essa chegam diariamente à editora.


Rodolfo Iltzcke em 1939


Sérgio Augusto - O engraçado é que os lei­tores dos gibis americanos escrevem mais pra discutir sobre o trabalho dos desenhistas e pra reclamar da ausência de tal e tal desenhista no número passado, que pra falar dos feitos heroicos dos personagens. Até que ponto, na sua opinião, esse interesse maior dos garotos americanos pela obra em si e seus autores é mais útil que o dos garotos brasileiros que ainda estão naquela de acreditar que o Batman existe mesmo?

AIZEN - Olha, de uns três anos pra cá, os leitores já começaram a reclamar dos desenhos. Muitos já falam até no Stan Lee.

Millôr - Adolfo Aizen, eu gostaria que você soubesse que as histórias em quadrinhos foram muito importantes pra minha formação cultural e profissional. Quando garoto eu copiava Flash Gordon milimetricamente. Enchia cadernos de desenhos copiados. Primeiro: antes dessa onda toda de intelectuais do establishment em favor dos quadrinhos, eu já sabia que aquilo era um negócio importantíssimo. Segundo: apesar de todo esse meu entusiasmo, você, Adolfo, prefe­riu dar o primeiro prêmio do seu concurso ao Femando Dias da Silva e não a mim.

AIZEN - Justamente por você ter sido cria do Suplemento Juvenil, Millôr, seu nome figura no terraço da editora.

Millôr - Tenho a maior satisfação, a maior emoção de saber disso e prometo que, se algum dia me atirar de um terraço, será desse aqui.

NOTAS 

1) O Tico Tico começou em 11 de outubro de 1905, com desenhos de Loureiro, A. Rocha, AIfredo Storni, Paulo Affonso, Miguel Hochman, Max Yantok, Fragusto, Cícero Valladares e ou­tros. Fechou em 1955. 
2) Sindicato americano que controla a distribuição de histórias em quadrinhos para jornais e revistas do mundo. Existem outros mas o King Features é o mais forte de todos. 
3) Alexander Gillespie Raymond, criador de Flash Gordon, X-9 e Jim das Selvas, o mais revolucionário desenhista da Idade de Ouro dos quadrinhos.
4) Quadrinizar: verbo cunhado por Adolfo Aizen e já registrado no Pequeno Vocabulário da Língua Portuguesa.


Mário Pacheco ilustra o livro Esta é Nossa História - Editora Ouro Preto - 1969.

Who's who ou onde é que eles estão?

Em seus 38 anos de história em quadrinhos, Adolfo Aizen descobriu, incentivou, revelou e perdeu dezenas de ilustradores e desenhistas da maior qualidade. Poucos permaneceram ao lado do velho Aizen, como é o caso de Monteiro Filho (autor do primeiro personagem brasileiro das histórias em quadrinhos: Roberto Sorocaba, desde o primeiro número do Suplemento Juvenil e André LeBlanc, que vai e volta e agora, ao que parece, voltou de vez. A maioria tomou o rumo da publicidade. Na palavra do Ziegfeld dos quadrinhos, algumas dicas sobre os velhos artistas da EBAL:

• Celso Barroso: entrou pra publicidade e está trabalhando em Los Angeles. 
• Alciro Dutra: falecido. 
• Rodolfo Iltzcke: alemão, morava em Niterói. Há muito tempo fora de circulação. 
• Mário Jaci: engenheiro. Trabalha pro governo da GB. 
• Milton Caserio: outro que foi pra publicidade. 
• Mário Pacheco: fez as primeiras histórias da série Grandes Figuras do Brasil. Aposentou-se. 
• Luís Fontes: publicidade (Editora Record).
• Hélio Queiroz: Nunca mais foi visto.
• Renato Lima: também sumiu. 
• Humberto Barreiras: começou menino na editora. Fora de circulação. 
• Ivan Rodrigues: um dos mais sérios pesquisadores iconográficos. Fez muitas histórias pra série sobre personagens e fatos do Brasil. 
• Ildeu Moreira: mora em Belo Horizonte. Dedica-se à pintura. 
• Antônio Eusébio: começou com 16 anos, fez várias capas pras Edições Maravilhosas. Também em publicidade. 
• Ramon Llampayas: espanhol, casado com uma cearense. O mais rápido desenhista que já passou pela EBAL. Voltou pra Barcelona.
• Guttemberg: era irmão do antigo motorista de Aizen. Mora nos EUA.