quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Tinoco, o caçador de feras - O Tico-Tico - 1936


Tinoco é um caçador que narra suas aventuras, mas são tão mirabolantes que dificilmente alguém acredita nelas. Criadas pelo cartunista Théo, forma publicadas em O Tico-Tico a partir de 1936.


Sobre Tinoco, foi escrito: 

"TINOCO, O CAÇADOR DE FERAS

Personagem humorístico criado por Théo em 1936, depois de ter lançado Chico Farófia. Com histórias completas de uma página, este engraçado caçador aparecia na revista O Tico-Tico, da editora O Malho".
O Mundo dos Quadrinhos - Ionaldo Cavalcanti - Ed. Símbolo - 1977


E sobre Théo:

"THÉO 

Brasil (1901-1980) 
Théo foi o pseudônimo que o cartunista, caricatu­rista e jornalista Djalma Pires Ferreira, nascido em Salvador, Bahia, em 2 de julho, utilizou durante toda a sua carreira. Suas primeiras charges, reme­tidas ainda de Salvador, saíram no periódico humo­ristico de Bastos Tigre, D. Quixote. Transferindo-se para o Rio, em 1922, Théo reuniu, ao longo de várias décadas, colaboração em jornais e revistas: 
O Malho, O Globo, Jornal do Brasil, Careta, A Nação, Gazeta, de São Paulo, A Noite, Vamos Ler, Revista da Semana e A Cigarra. Sua mais conhecida criação, a Bola do dia, foi publica pelo O Globo por mais de trinta anos. Nos quadrinhos, principalmente na década de 30, Théo tomou-se muito conhecido entre os leitores de O Tico-Tico. Primeiro ele criou Chico Farofia (1934). Depois, uma versão cabocla do Tartarin de Tarascon, Ti­noco, caçador de feras (1938), que o popularizou ainda mais como desenhista de quadrinhos. Seus bonecos eram feitos com poucos traços, mas estilo moderno e expressividade ótima". 

Enciclopédia dos Quadrinhos - Goida / André Kleinert - Ed. L&PM - 2011

Théo na revista Vamos Ler - 1942


Ademar de Barros por Théo, Diário Popular - 1964

terça-feira, 29 de agosto de 2017

André LeBlanc - Entrevista - 1998

Esta entrevista foi publicada no site Spaccatutto. Como não está mais disponível, republico para que todos possam ler. Ela trata basicamente da carreira internacional de LeBlanc, mas serve como complemento àquela publicada anteriormente, retirada de O Pasquim de 1972, e que pode ser lida aqui.

LEBLANC, O FANTASMA DO FANTASMA

entrevista a Ed Rhoades 
©1998 Ed Rhoades 

Entrevista de André LeBlanc a Ed Rhoades, editor de "Amigos do Fantasma" (Friends of The Phantom) - traduzido por Spacca (colaboraram Marcelo Campos, da Fábrica de Quadrinhos; o ilustrador Pepe Casals e o próprio Ed Rhoades). 

ADF - Você encontrou Dan Barry no estúdio de Jack Binder, e mais tarde ele o chamou para trabalhar em Flash Gordon? 

LB - Eu não via Dan desde que trabalhamos juntos no estúdio de Binder, e ele morava num hotel muito chique entre as ruas 57 e 59, quando me ligou. 

ADF - Você na verdade ganhou um "byline" (reconhecimento oficial do nome do artista assistente, escrito na tira junto ao do titular) para trabalhar em Flash Gordon... Não era bom? 

LB - Sim, isso era bom da parte dele. Era a segunda ou terceira vez que me chamava. Estivemos juntos nisso outras vezes... A primeira vez foi em 1957, quando ele estava planejando voltar para a Europa. E em algum momento de 1958 ele me ofereceu... naquele tempo, Flash Gordon estava no auge. Até há pouco, Flash vinha sendo feito por Alex Raymond, até que ele se matou num acidente de automóvel (1956). Raymond estava entre os melhores desenhistas que eu jamais vi. Considero-o ainda melhor que Hal Foster. 

ADF - Flash passou de Alex Raymond para Dan Barry.

LB - Ele se matou naquele trabalho. Eu tenho algumas daquelas primeiras tiras. Ele deu um passo maior do que as pernas (nota: "big boots to fill" no original - a dificuldade de corresponder à expectativa de igualar um antecessor com grande reputação). Ele lutou, quero dizer, ele realmente deu duro naquela tira, com amor, dedicação e trabalho árduo. Então, descobriu que podia economizar um bocado de dinheiro com impostos. A tira pagava extremamente bem... se você fosse à Europa, passasse uns 18 meses lá e voltasse depois, tinha um abatimento nas suas taxas americanas que eram muito altas nos anos 50. Entre outras coisas, ele disse "André,  tenho um negócio para você, venha comigo para a Europa e vai ser muito bom para nós, vamos produzir essa tira", e me ofereceu um salário muito bom naqueles dias, 250 dólares por semana. Ele ficou com 70%... algo em torno disso. E eu disse, droga, sou um homem casado. Ele disse, "traga a sua esposa junto". Ele ia viver em Kitzbühel nos Alpes Austríacos. Eu disse "Dan, meus amigos estão aqui, meu trabalho está aqui, minha mulher... ". Então ele convidou Rick Estrada e Rick topou.

ADF - Então com Dan na Europa, você não podia mais trabalhar com Flash Gordon?

LB - Não, mas nesse meio-tempo, parece que ele deu meu nome e endereço para Sy Barry. Então Sy entrou em contato comigo. Só o conhecia de vista. Mas quando me chamou para ajudá-Io, ele tinha um bom trabalho para fazermos. Era um gibi sobre Rosa Parks (*ativista negra que foi presa em 1955 no Alabama, por recusar-se a ceder o assento a um homem branco num ônibus). Umas 64 páginas de quadrinhos. Aí me chamaram para uma outra coisa qualquer... você sabe, há sempre portas se abrindo. Foi quando trabalhei com Lee Ames (autor de uma famosa série de livros didáticos de desenho, "Draw 50"). Nós trabalhávamos para a MacMillan ilustrando textos infantis. E aquilo pagava melhor que qualquer gibi. 

ADF - Eu vi aquele livro do George Washington.

LB - Eu fiz o livro inteiro, mas saiu com o nome de Lee Ames, porque ele tinha assinado o contrato. Ele me disse "estou apertado, estou fazendo um trampo para a MacMillan e me deram um prazo final. Você me ajuda?" Então eu fiz, mas o contrato estava em nome do Lee. Fiz, porque ele tinha sido um amigão arranjando esse trabalho tremendo na MacMillan, pagando a fabulosa soma de 10 mil dólares por ano. Era uma fábula em 57... De qualquer forma, depois fiquei com a sua agente, Mary Gerard. Ela era bem conhecida... uma boa agente. Eu nunca poderia tê-Ia contratado sozinho, mas como Lee a estava deixando, ela disse "vou ficar com você no lugar dele e faremos o mesmo trabalho". Lee trocou a MacMillan pela Doubleday e eu fiz freelances para a MacMillan... Trabalhei para Allan e Bacon. 

LeBlanc em A Cigarra - 1946

Em 1969, voltei ao Brasil. Ela estava em um cruzeiro com seu marido e era sua lua-de-mel. Eles vieram ao Rio e eu os recebi em minha casa (naquele tempo Le Blanc tinha uma incrível mansão no Rio). Mas naquele tempo eu estava preocupado com meus fílhos sua educação. Eu queria que eles aprendessem inglês... essa é a linguagem do mundo, a linguagem dos negócios, a linguagem da arte, a linguagem da literatura. Os japoneses falam inglês, até os alemães falam inglês. Eles estavam aprendendo português... uma língua indecifrável ("an arcane language"), inferior ao espanhol na opinião de muita gente. Então voltamos aos Estados Unidos. Quando nós voltamos Vivian veio conosco, mas Francis ficou por um tempo porque ela estava na universidade. Eu voltei em 1969 ou 70. 

ADF - Foi quando você fez a Bíblia?

LB - Eu fiz a Bíblia nos anos 60 (The Picture Bible, David C. Cook).

ADF - Você foi à Terra Santa?

LB - Fiz duas viagens à Terra Santa. Uma vez sozinho e outra com a família. Tomamos um cruzeiro e paramos em todos aqueles lugares da Terra Santa, e eu aproveitei a oportunidade. Deixei a família em Tel Avive fui a Jerusalém, a Jericó. 

ADF - Você fotografou ou fez desenhos? 

LB - Principalmente desenhos... Tirei algumas fotos, as pessoas usavam roupas pesadas, sujas, em preto, cinza e branco sujo, mas nós vestíamos cores vivas. Você não é notado, se parar na rua e ficar desenhando. Nos países islâmicos, se você pára e tira fotografias, você é suspeito... especialmente se há mulheres na multidão. Israel é uma sociedade secular (leiga, não-religiosa) e quando você vai a outros lugares, você se sente um estrangeiro, e você é de fato um estrangeiro. 

ADF - Quando você trabalhou na Bíblia?

A Bíblia de LeBlanc.

LB - Trabalhei na Bíblia antes de fazer Rex Morgan (tira criada em 1945 por Marvin Bradleye Frank Edgington, sobre um psiquiatra - LeBlanc trabalhou nisso nos 60). 

O que aparece no livro não é tudo. O material foi comprimido depois para se adaptar ao formato... havia coisa boa, poética. Tive um trabalhão para ilustrar os Cânticos de Salomão. Publicaram uma Bíblia de 900 páginas. Eu colori mil... Tinha umas mil e duzentas, mil e trezentas páginas, mas tiveram que comprimir.

ADF - Você tem os originais?

LB - Estou tentando ter de volta. Consegui recuperar alguns.

ADF - Quanto tempo você trabalhou nisso?

LB - Seis anos. A razão porque eu não tinha direitos foi porque eu não assinei um contrato para fazer o livro. Eu era contratado só pelo trabalho, como fazemos com quadrinhos hoje (no original: "I worked for hire", é um free-Iance sem direito autoral, no qual os direitos e a propriedade do trabalho são transferidos para o contratante). Não havia direitos para quadrinhos tampouco. Você pegava o trabalho, nada mais; aquilo era deles.

ADF - Seu trabalho bíblico saiu nos jornais?

LB - Sim, no mundo todo. O que eu fazia era um pequeno jornal dominical que eles estavam experimentando (nota: o editor desse pequeno jornal dominical era David C. Cook, hoje um enorme editor de Bíblias e material educativo apostólico nos EUA - Christian EdWarehouse).

O FANTASMA DO FANTASMA

ADF - Conte-me sobre o Fantasma.

LB - Bem, trabalhei no Fantasma com Sy Barry; ele é um cujo nome aparece no Fantasma. Eu o ajudei na pintura e fiz o lápis por sete anos, mas a tira é de fato de Sy Barry. Ele é o artista de verdade. Seu nome aparece na tira todo o tempo. Eu o ajudei nisso, mas nunca foi minha tira.

ADF - Quando começou a trabalhar com Sy na tira, oque você começou fazendo?

LB - Eu entrei com o prazo estourando. Alguém estava trabalhando com ele...

ADF - Acho que era George Olesen, que foi chamado para fazer arte publicitária.

LB - Deve ter sido isso. Havíamos trabalhado juntos antes, então ele já me conhecia. Alguém tinha me dito que Sy Barry estava tentando me encontrar, mas nossos caminhos não se cruzavam. Finalmente ele conseguiu meu telefone, e eu tinha acabado de chegar do Brasil. Da primeira história não me recordo, porque foi uma fase tão frenética e sem descanso, a gente tinha que correr e eu tinha que fazer as tiras fora de ordem. Ele estava trabalhando nisto, aí precisava daquilo... "Você pode deixar começado para que eu continuar depois"? 

ADF - Você fez o lápis nos anos 60?

LB - Ah, sim, no fim dos 60 e 70, eu fiz o lápis. Fiz a série inteira do Casamento do Fantasma (1977-78). No Brasil, publicaram a coisa toda num só álbum. Ficou muito bom. Eu gostei de fazer aquilo. Todos dizem que uma das seqüências mais bonitas é quando ele pede a mão dela e eles ficam naquela fase em que ele não está seguro e ela não está segura... deverão fazer ou não? Eu me diverti muito fazendo aquilo.

O casamento do Fantasma.

ADF - Você fez as tiras diárias e as dominicais da sequencia do casamento?

LB - Toda a série... aquela coisa deles irem passar a lua-de-mel na pequena cabana de jade... cavalgar os golfinhos... Você sabe, pouco antes disso... a série realmente começou quando os caçadores foram lá caçar animais e isso era contra a lei do Fantasma. Toda aquela série estava amarrada como um preâmbulo para o casamento.

ADF - Você sabia que o parlamento da Nova Zelândia suspendeu as atividades para debater se Diana devia continuar trabalhando ou morar na Caverna da Caveira? 

LB - Isso é verdade? Ela estava trabalhando nas Nações Unidas naquele tempo. Sabe o que eu li uma vez na Time? Que nas ilhas do sul do Pacífico, o Fantasma é uma figura lendária de tal modo que o governo, quando quer que o povo faça alguma coisa, por exemplo, numa campanha como "O Fantasma diz: comam mais amendoins". Se eles querem dar um recado importante, eles usam o Fantasma. É a coisa mais fantástica. Faz dez anos que tenho esse recorte. 

ADF - Na Suécia tem um parque de diversões temático do Fantasma.

LB - Sim, ele é muito popular na Suécia. Eu tenho alguns exemplares com trabalho meu enviado por alguém da Suécia.

ADF - Então você começou no Fantasma fazendo o lápis...

LB - Sempre foi lápis, mais tarde fiz um pouco da tinta, mas no começo era só o lápis. O trabalho de Olesen era o layout e o desenho. Acho que o primeiro trabalho tinha a ver com uma princesa - eu lhe dei alguns desenhos de um cara com uma espada - e umas pessoas transformadas em estátuas, e havia um jarro com um certo perfume que as pessoas cheiravam e desmaiavam ... e ela tinha trazido essas pessoas e o Fantasma estava entre elas. Nesse ponto eu ia começar a desenhar e dizer, "veja, está acontecendo isto: tem uma cara na arena com uma espada, e tem outro com um escravo atrás... ele tem que se defender mas não quer matar ninguém, então ele aponta a espada para as pessoas em volta dele". E havia várias estátuas que eram pessoas de verdade e essa rainha - eu lhe dei um desenho dela - e o Fantasma na arena com uma espada. Acho que o trabalho ficou bom, apesar que eu nunca soube sobre o que era a história (risadas).


LeBlanc ilustra O Guarani - Ebal -1954

ADF - Meu palpite é que era por volta de 1972.

LB - Deve ter sido por aí.

ADF - Então você começou e fez alguns clássicos...

LB - Sempre teve interrupções, eu entrava e saía. Eu tinha minhas próprias obrigações naquele tempo... não quadrinhos, mas ilustrações, livros. Eu ainda estava trabalhando com David C. Cook fazendo ilustrações bíblicas. Depois que terminei a Bíblia, tive um acordo com ele para continuar com o trabalho dominical escolar, ilustrações e revistas. 

Naquele tempo, eu estava pronto para entrar de cabeça e ajudar Sy em tempo integral. Mas mesmo quando eu estava fazendo o lápis em "O Guardião das Trevas Orientais", no "Casamento" e tudo aquilo, eu sempre estive fazendo outras coisas. Eu tinha que achar tempo para trabalhar para mim e para Sy. Era uma época bastante cheia.

ADF - Ao contrário de muitas tiras, o Fantasma nunca entrou em férias... Era quando Sy contava com você para cobrir as férias dele?

LB - Com muita freqüência, porque eu tinha me tornado um substituto confiável. Quando ele precisava se ausentar, eu tinha que atrasar meu próprio trabalho, que punha de lado para ajudá-Io naquilo, porque eu conhecia a pressão. Eu fazia isso porque era seu amigo... você faz essas coisas... 
Ele dizia, "André, alguma coisa está acontecendo com a família, eles estão todos juntos e eu tenho que tirar uma semana. Preciso que você faça uma semana de Fantasma." Eu respondia "claro" e mergulhava naquilo e tentava combinar com tudo que tinha sido feito antes. Eu sempre fui meio camaleão... Sempre consegui pegar o bonde andando e igualar a técnica de alguém quando tinha que fazer isso... como quando você faz a minha assinatura e me faz crer que, se assinasse um cheque meu, iria passar.

Sy e eu trabalhamos em várias coisas antes e o vínculo estava lá, a comunicação estava lá.

ADF - Você ficou nesse entra e sai com Sy até o afastamento dele?

LB - Até exatamente quando ele parou... na fase do seu retiro, nós trabalhamos juntos.

ADF - Nesse ponto George Olesen tinha voltado e você estava retocando o lápis (tightening pencils)? 

LB - Não sei quando George Olesen voltou. Eu sei que teve um tempo em que eu fazia a coisa toda, layouts, planejamento (breakdown) e tudo e teve um tempo em que ele me chamaria para só corrigir o traço final a lápis (tight pencil). 

ADF - Layouts ou brekdowns são diferentes de "tight pencils"?

LB - O material de Olesen tinha o layout e a caracterização corretas, mas você não podia simplesmente passar o nanquim direto. Havia coisas como perspectiva... pequenos detalhes que iriam ficar muito evidentes quando se passasse a tinta, mas que não pareciam tão ruins enquanto estavam em fase de esboço (rough). Havia áreas que estavam perfeitas, mas no quadro seguinte havia um problema que você tinha que passar a borracha. Sy era tão meticuloso e perfeccionista que ele limpava o traço em tudo. O maior elogio que tive de Sy foi quando estávamos fazendo "O Casamento do Fantasma". Ele disse "André, eu posso sentar e passar o nanquim direto, sem tocar no lápis". Fui lá uma vez, não a trabalho, e ele e Joe Giella estavam numa correria, e o mensageiro já esperando para levar o trabalho. Sy e Joe estavam em pranchetas separadas, trabalhando furiosamente em cima dos sketches brutos de George Olesen, que eram pouco mais do que um esboço.

ADF - O que Joe fazia era principalmente nanquim?

LB - Quando eu vi, era o que ele fazia... e era soberbo, por sinal... soberbo. O nanquim de Joe Giella era de alta qualidade.

ADF - Eu percebi diferenças quando você fazia o lápis ou só fazia o acabamento. O Fantasma era um pouco mais alto e magro.

LB - Sim percebi isso também. George tinha a tendência de fazer o Fantasma mais largo e com as mãos maiores. E Sy sempre mantinha especialmente as mãos e os braços em proporção... os bíceps e coisas do tipo.

CRIANÇAS E ARQUÉTIPOS

ADF - Percebi que o traço dos vilões se manteve inalterado no trabalho de George.

LB - Sim, ele fazia vilões muito bem. Ele dominava a linguagem muito bem. Depois vieram as crianças (os filhos do Fantasma), crianças são um tema particularmente sensível. Quando trabalha com crianças, você tem que se livrar de todas as noções pré-concebidas. Algumas dessas mulheres artistas, ilustradoras de revistas de moda, fazem crianças lindamente. Você pode pegar dicas com elas. Elas sabem exatamente o que deixar de fora. Quando você faz estas coisas, é para um grande público... você quer que elas sejam o mais adoráveis possível. Uma criança de dois ou três anos deve parecer engraçadinha, e uma mulher deve ser bonita, a menos que você deliberadamente queira desenhar uma bruxa velha com uma verruga no nariz... Se você está desenhando uma mulher comum, ela tem que ter proporções harmoniosas, uma boca delicada, um pequeno nariz e grandes olhos. Você pode variar as proporções, mas elas têm que seguir basicamente aquelas linhas que tornam uma mulher atraente, que a façam parecer uma heroína. Hollywood faz isso o tempo todo. Somos todos influenciados por Hol!ywood e nossa expectativas são totalmente Hollywood... como o herói bonitão deve ser, dizer e fazer e a bela heroína. As palavras "bela" e "heroína" são quase inseparáveis, assim como "bonitão" e "herói". O herói feio, a heroína "tábua"? Eles nunca fazem isso. Os quadrinhos estão reduzindo tudo ao elementar... a um grupo de arquétipos. A mulher é representada como Beleza, e o homem como Força e Justiça. Estes são arquétipos, então você não pode ter um arquétipo com uma cara medíocre. Você tem que ter uma queixada forte num rosto bonito, você busca isso... inconscientemente, mas busca... você tem que fazer isso.

ADF - Você é especialista em animais?

LeBlanc ilustra Monteiro Lobato - A chave do tamanho - Ed. Brasiliense - 1969

LB - Sim, toda a minha vida eu sempre amei os animais e quis observá-Ios e tentar entendê-Ios. Tenho um instinto especial para cavalos. Quando era bem jovem, eu aprendi sozinho a cavalgar. Comprei um livro com técnicas sobre como controlar um cavalo. Amo cavalos e amo desenhar cavalos.

ADF - Você contribui para manter os animais nativos em suas respectivas regiões...

LB - Eu tinha naturalmente a esperança de sempre satisfazer os puristas que lessem a tira, para que não encontrassem nenhum erro nela. Vacas africanas são diferentes das vacas da América. Nossas vacas são suíças e italianas... vacas européias. Na África, as vacas têm chifres retos, de quase um metro de comprimento (gado Ankole... semelhante ao Zebu indiano). Os caras que fazem quadrinhos não se dão ao trabalho de pesquisar. Para muitos, uma vaca é uma vaca. Eles nunca viram outra vaca a não ser aquela com grandes úberes. Nós só conhecemos vacas leiteiras, não conhecemos o gado genérico que existe em lugares longínquos. No Vietnam, se você quer mostrar o gado, você tem que desenhar búfalos. Na África, há um tipo distinto. A vaca européia não vinga nesses climas. Elas são muito delicadas, precisam de muita comida, antibióticos, precisam muito de tudo. Elas são um produto da nossa civilização.

ADF - Você tem um arquivo?

LB - Tenho um arquivo razoável, serve para mim. Posso encontrar barcos, edifícios, tigres, leões, baleias, golfinhos e coisas menos exóticas. Posso achar um caderno inteiro com retratos de animais sentados, correndo. Se eu preciso de leões, não agressivos, mas sentados calmamente, posso encontrar leões apenas sentados ou parados. 

Você tem que ter um bom arquivo. Você deve possuir um bom arquivo de pessoas também. Eu tenho tudo, de todas as fontes. Você se descobre o tempo todo analisando, "onde tem uma coisa boa neste jornal?". Você encontra um tipo com uma barba interessante, ou um jeito interessante nas curvas dos cabelos vistos por trás. Este é um problema freqüente, você precisa de uma visão de trás e o sujeito tem cabelo ondulado. Como é que termina na nuca, ele enrola ou termina recortado? Por isso eu tenho um arquivo. Se você vê uma foto incomum de uma pessoa primitiva numa selva fazendo algo típico, são coisas como essas que eu tenho em meu arquivo. Tenha um arquivo, é o que eu sempre digo aos meus alunos.

O AMIGO DO REI

ADF - Você viveu algumas aventuras viajando...

LB - É uma questão de como sopra o vento em certos dias. Nunca podemos prever os acontecimentos, coisas realmente bizarras ocorrem além do seu controle. Eu estava num navio indo de Havana ao Rio de Janeiro. Era uma "nau dos loucos", meu amigo, Dr. De Tomasi e sua mulher estavam indo construir uma fábrica da Bausch & Lomb (nota: fabricante de lentes), que na verdade era uma fachada para um projeto militar secreto. Eles foram e construíram a fábrica e depois usaram parte dela para produzir armamentos.

Foi uma longa viagem e levou 27 dias para chegar. A bordo desse navio... por sinal, era um navio argentino que havia sido tomado dos vasos de uma esquadra francesa que tinha ficado presa na guerra em Buenos Aires. E os argentinos estavam usando esses navios para não enferrujarem e simplesmente se perderem. Então eles trocaram o nome para "Rio Tunuyam". A bordo desse navio, sem saber... como eu poderia supor, nos meus sonhos mais delirantes, que estaria o rei Carol da Romênia, que tinha fugido dos nazistas com a amante, Madame Lupescu! Havia dois enormes Cadillacs no compartimento de cargas, e diziam que havia ainda dez barris de moedas de ouro que ele conseguiu pegar pouco antes de fugir com Madame Lupescu, 40 baús de roupas e 10 cães que tinham que passear todos os dias. Era uma situação bizarra. (nota: Carol ll fugiu da Romênia após sua abdicação em setembro de 1940, levando consigo sua amante Magda Lupescu, de origem judia. Eles se casaram no Rio em 1947 e ela recebeu o título de Princesa Elena.) 


Eu estava ainda fazendo a minha tira "Intellectual Amos" e todo dia a bordo, o que não era tão difícil, eu procurava um lugar quieto no deck superior, sentava, punha a minha prancheta e trabalhava na tira. Eu tinha uma pilha de histórias que ia despachar quando chegássemos ao Rio. Então, lá vinha o rei Carol fazendo seu exercício matinal, não "jogging", apenas caminhando pelo deck e então ele me vê desenhando... ele se sentou perto de mim e começou a perguntar sobre a tira, sobre desenho, pintura. Ele tinha um primo que gostava de desenhar... ficamos assim, jogando conversa fora. Os passageiros eram ingleses, argentinos, cubanos e como eu vinha de Havana, pensaram que eu fosse cubano. E ele falou comigo em espanhol. Carol também falava em inglês, mas Madame Lupesku só falava em francês.

Depois disso eu me vi envolvido na festa da realeza e sendo alvo da inveja de todas aquelas mulheres inglesas, que estavam morrendo para sentar perto do rei no salão de jantar. Era um grande salão; nós tínhamos um chef francês que preparava os mais suntuosos jantares porque tinha a realeza a bordo. E lá estava eu, num papo firme com o rei da Romênia e aquelas mulheres não acreditando... quem era eu? Como podia estar falando com o rei e elas não podiam chegar nem perto dele? (risos). É a loucura da vida... coisas que você não espera. Eu cheguei a visitá-Io depois que chegamos ao Rio. Ele me deu seu endereço. Era no Copacabana Hotel, e eu fui lá fazer uma visita de cortesia e desejei-lhe felicidades. Toda a corte da Romênia estava lá e ele me falou: "venha me ver quando quiser". Mas eu imaginei que estava apenas sendo gentil e eu não poderia esperar me juntar àquele grupo socia!. Naquele tempo, ele estava sendo visitado pela família real do Brasil e diplomatas que vinham prestar-lhe seus respeitos e eu estava lá simplesmente porque ele tinha sido simpático comigo, e me senti um peixe fora d'água. 

ADF - É irônico que o presidente do Brasil o tenha chamado anos depois (segundo o entrevistador, Le Blanc foi condecorado mais tarde com a ordem do Cruzeiro do Sul).

LB - Que aventura... que passeio! Foi divertido, em todo caso.
Meu amigo Rick Estrada recentemente me falou sobre deixar de lado as lembranças de pessoas que não foram boas conosco, e eu tentei lembrar de algum inimigo para perdoar, mas tudo o que encontrei foram gentilezas... Não pude encontrar um só inimigo em minha vida, pessoas que deram uma informação errada e mudaram o curso da minha vida... não pude pensar em ninguém que tenha me ferido ou desviado meu caminho. Olho para trás e o que vejo parece ter saído de alguma novela... Não tenho ninguém para perdoar. Isso soa falso... uma briga de escola que me deixou o nariz sangrando acabou numa boa amizade... nunca tive alguém rancoroso comigo. E não posso me lembrar de alguma vez ter querido machucar alguém. As pessoas com quem me relacionei sempre foram tão positivas. Sou grato pela amizade e gentileza de todas as pessoas que encontrei pelo caminho. 

- André Le Blanc 


sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Série Romântica - A Nação - 1963


Como o próprio nome já diz, Série Romântica era uma tira com histórias de amor, avulsas e sem personagens fixos.

Foi publicada no tabloide A Nação e era creditada a Gedeone Malagola. Alguns episódios tinham o crédito do cartunista Edison (pelo estilo do desenho podemos supor que seja um pseudônimo do próprio Gedeone).


A Nação era um tabloide paulistano das empresas O Esporte e A Hora que circulou entre 1963 e 1964, tendo como diretor-presidente J. B. Viana de Morais, como redator-chefe Nabor Caires de Brito e como editor de arte Luís Sanches.


Sobre Gedeone, os pesquisadores Goida/André Kleinert escrevem em seu livro Enciclopédia dos Quadrinhos (L&PM - 2011): 

GEDEONE - Brasil (1924-2008)

"Veterano argumentista e desenhista nacional, nasceu em São Paulo em 7 de julho. Seu nome todo é Gedeone Malagola. Começou estudando desenho com o pai, que era pintor. 

Formou-se em arquitetura, mas apaixonado pelos quadrinhos, as charges e a ilustração, na década de 40 começou uma enorme produção no gênero. 

Gedeone em A Marmita - 1947

Trabalhou para A Marmita, O Governador, Novo Mundo, Jupiter, Vida Juvenil e andou até pelo Rio Grande do Sul, na década de 60, quando ilustrou em quadrinhos a Vida do Padre Reus (padre jesuíta ao qual atribuem milagres, espécie de Padre Cícero da região). Ajudou a fundar várias revistas editadas pela Cômico Colegial (Congo King, Tambu, Jane West, Professor Pinguim, Capitão Wings, Capitão Astral e Aventuras no Sertão, com Milton Ribeiro, o Cangaceiro). Gedeone também fez a continuação de muitas histórias norte-americanas publicadas pelas editoras nacionais, suprindo a falta de mate­rial original (Juju Faísca, X-Men, O Homem Mosca). 

Seus personagens próprios mais conhecidos foram o Homem Lua, a Múmia, Raio Negro e Hydroman. Como roteirista de histórias de horror, apareceu nas páginas de Calafrio e Mestres do Terror, da D'Arte. Um dos melhores personagens roteirizado e desenhado por Gedeone, Raio Negro, teve reedições no tempo da Grafipar. 

Um pouco antes de sua morte, Gedeone e Emir Ribeiro trabalharam em uma aventura onde Raio Negro se encontrava com Velta. Antes disso, ele tinha participado nas revistas Metal Pesado e Guerreiro de Jobah".

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Seu Tribulino - Tribuna da Imprensa - 1950


Publicado na Tribuna da Imprensa, jornal carioca de Carlos Lacerda, entre 1950 a 1953, Seu Tribulino era uma tira sem balões criada por Hilde Weber. 

Foi provavelmente o único trabalho em forma de tiras da desenhista.

Em 19/07/1950 surge a primeira tira, um pouco depois da autora ser contratada como ilustradora e chargista fixa do jornal e após uma série de anúncios de um concurso conclamando os leitores a votar em um nome para o personagem.


A tira aparece sempre em destaque, geralmente na página 2 ou 3 e frequentemente no alto. Percebe-se no personagem influências da charge diária assinada por Hilde no mesmo jornal. A série não tem diálogos mas se vale de frases escritas em cartazes ou na parede, uma ou outra vez surge um tímido balão de fala e tem sempre um título que dialoga com os desenhos, livres e soltos, como era o Getúlio Vargas desenhado pela artista e tão espinafrado pelo diário de Lacerda, a essa altura um ex-comunista com bom trânsito entre os católicos.

Se conceitualmente Seu Tribulino lembra o Juca Pato de Belmonte, desnudando as mazelas da vida da classe-média, esteticamente a tira remete aos cartuns mudos europeus, principalmente à série Pai e Filho do cartunista alemão E. O. Plauen, que inclusive foi publicada no suplemento infantil do jornal chamado A Tribuninhaprovavelmente por indicação da própria Hilde.

Pai e Filho de E. O. Plauen

Eram comuns nessa época os concursos com prêmio em dinheiro nos jornais brasileiros, com o intuito de aumentar as tiragens, por isso, não é de se estranhar que o nome da personagem tenha sido escolhido pelos leitores dessa maneira.

Agradecimentos ao amigo Marcos Eduardo Massolini pela dica do personagem!

Charge de Hilde - 1951

Hilde Weber AbramoWaldau, Alemanha, 1913 - São Paulo, SP, 1994. 

Chargista, ilustradora, desenhista, pintora, ceramista. Em 1932, conclui os estudos na Escola de Artes Gráficas de Hamburgo. Nesse mesmo período, inicia cursos de desenho e de pintura e trabalha como ilustradora em jornais e revistas em Altona, na Alemanha.

Em 1933, chega ao Brasil para reencontrar-se com o pai, que viera para cá em 1918, após o término da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Hilde Weber permanece no país e, no Rio de Janeiro, atua ao lado de Rubem Braga (1913 - 1990), realizando ilustrações para os Diários Associados, de Assis Chateaubriand (1892 - 1968).

Entre 1943 e 1950, vive em São Paulo e passa a criar ilustrações para os periódicos Folha de S. Paulo, Noite Ilustrada, O Cruzeiro e Manchete. 

Estuda pintura com Bruno Giorgi (1905 - 1993) e, com Alfredo Volpi (1896 - 1988) e Mario Zanini (1907 - 1971), dedica-se à cerâmica e à pintura de azulejos na Osirarte, de Rossi Osir (1890 - 1959).

Em 1949, desenha o cenário para a peça teatral Baile dos Ladrões, de Jean Anouilh (1910 - 1987). Em 1950, transfere-se para o Rio de Janeiro e trabalha na Tribuna da Imprensa, de Carlos Lacerda (1914 - 1977).

Ilustração para A Tribuninha -1951

Torna-se conhecida pelas charges políticas e caricaturas do presidente Getúlio Vargas (1882 - 1954). Em 1962, muda-se em definitivo para São Paulo e atua como colaboradora no jornal O Estado de S. Paulo. Em 1960, recebe o prêmio Seção América Latina do Concurso de Caricaturas do World Newspaper Forum, pelas melhores charges internacionais. Participa da 1ª a 4ª e 6ª edições da Bienal Internacional de São Paulo. Publica Brasil em Charges 1950-1985, pela Circo Editorial, em 1986. Hilde Weber figura entre os principais chargistas políticos da imprensa brasileira. Entre seus trabalhos, destacam-se, sobretudo, os realizados na década de 1950 e publicados diariamente na primeira página da Tribuna da Imprensa, de Carlos Lacerda (1914 - 1977). Ferrenho opositor do governo de Getúlio Vargas (1882 - 1954), Lacerda utiliza-se do jornal para exigir a renúncia do presidente. As caricaturas criadas por Weber tornam-se, então, emblemáticas dessa campanha
política.

Talvez tenha sido Hilde Weber quem melhor retrata o momento de crise da Era Vargas.

Charge de 1950

Por meio da ilustração diária dos acontecimentos políticos e cotidianos do Brasil, Weber torna-se uma cronista a narrar, de maneira bem-humorada, situações tensas e dramáticas.

Sem deter-se nos detalhes, trabalha com traços rápidos, inacabados, que parecem dialogar com a própria velocidade dos fatos. A economia nos traços e a constante preocupação em comunicar dão a precisão dos comentários críticos, ela define o desenho como a técnica ideal para “dizer tudo com pouco”.

Com a publicação do livro Brasil em Charges 1950-1985, em 1986, Hilde Weber organiza a parte da história política brasileira, comentada por seus desenhos nas páginas dos jornais.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Pelezinho - Folha de S. Paulo - 1976

Pelezinho em 1979 na Gazeta de Vila Prudente com o título de "Pelé".

Em 1976 era apresentada ao pública a tira oficial de Pelezinho. Diferentemente das experiências anteriores, esta era baseada nas características do Rei do Futebol, Edson Arantes do Nascimento, o Pelé

Criada por Maurício de Sousa com a anuência do jogador, a série foi publicada nos mais diversos jornais, como a Folha de S. Paulo e a Gazeta de Vila Prudente.

Em seu livro O Mundo dos Quadrinhos de 1977, Ionaldo Cavalcanti escreve: "Pelé - Série humorística lançada em 1976 em tiras diárias na Folha de São Paulo. Criada nos estúdios de Maurício de Sousa, esta série, cujo tema central é o futebol, pretende aproveitar a grande popularidade do "Rei", contando suas travessuras futebolísticas durante sua infância".

Abaixo segue a matéria publicada pela Folha quando do lançamento da tira:

Folha de São Paulo
Terça-feira, 5 de outubro de 1976

"Pelezinho", o novo personagem de Maurício de Sousa, mostra as aventuras do "menino-Pelé" na sua infância, construindo jogos, os amigos e a vida do futebolista.

Pelezinho e sua turma, uma história bem brasileira.

Maria José Arrojo

As histórias em quadrinhos sempre procuram retratar (principalmente as dirigidas ao público infantil) perso­nagens que não existem na realidade. É o caso das aventuras vividas por Pato Donald e sua família (Walt Dis­ney). As primeiras tentativas em atribuir a "personagens-gente" his­tórias que pudessem mostrar brin­cadeiras vividas pelas crianças sur­giram com os "Peanuts" - Charlie Brown e sua turma.

O Brasil há até pouco tempo impor­tava as peripécias desses personagens infantis, tentando atribuir-lhes algu­mas características brasileiras. Con­tudo, foi a partir de "Cebolinha", "Mônica" e "Cascão" que o público in­fantil brasileiro pode ver historinhas tipicamente brasileiras, enquadradas no contexto dos jogos e folguedos brasileiros.

Surgem agora, as tiras que vão fazer tanto o público infantil como o adulto vibrarem. Trata-se de "Pelezinho", como será chamado o personagem, transportada para história em qua­drinhos que Maurício de Sousa lança hoje em caráter internacional, e que devem mostrar não o "Pelé-Rei", mas o menino Pelé, criança característica brasileira pelas suas brincadeiras de rua.

A IDEIA 

Até se chegar ao lançamento, muitas transações e reuniões aconteceram. A primeira vez que Maurício de Sousa pensou em lançar Pelé em histórias em quadrinhos, mostrava o jogador ilus­trando fatos esportivos. Nessa época não havia só o problema de se encon­trar a fórmula ideal para aproveitar a figura Pelé e seus famosos momentos no futebol em histórias em quadrinhos, como também os problemas relacio­nados a contratos. Por isso, "Pelezi­nho" esperou um pouco mais para nas­cer. 

As ideias continuaram no plano abs­trato até o encontro de Pelé com Maurício de Sousa, num avião quando voltavam de Roma para São Paulo: Maurício voltava de um congresso in­ternacional sobre quadrinhos, onde há havia exposto suas ideias e Pelé, então jogador do Santos, voltava de mais uma de suas excursões. 

"De inicio, Pelé relutou em aceitar a ideia, ver sua imagem ligada a um personagem com feições estritamente infantis", explica o criador de "Cebolinha", acostumado a ver-se ligado a há caricaturas ou, ainda, como veículo de difusão do futebol brasileiro.

A defesa de Mauricio: o persona­gem seria dirigido às crianças e não aos adultos. "Leve para sua criançada, se disserem "Ah! Que bonitinho" pode acreditar que o pelezinho foi aprovado", foi a argumentação de Maurício.
Com isso, o primeiro obstáculo já havia sido vencido. Precisava-se elaborar agora a forma final do desenho. Nisso, até Rose (esposa de Pelé) opinou: preferia um que se assemelhasse ao filho do casal.

WARNER X UPI

Pelé vinculado a LCA, agência da Warner que cuida da elaboração de quadrinhos; Maurício à UPI, encarregada da distribuição de "Cebolinha" e "Mônica" para os países da Europa constituia então o problema de mais difícil solução. 

Por incrível que possa parecer, a LCA resolveu liberar Pelé, fundamentalmente por dois motivos: primeiro, porque nos Estados Unidos, atualmente, não há muito prestigio em torno de  histórias em quadrinhos e em segundo: a Warner tem interesses em difundir a imagem do Pelé. E, nessa transação de contratos a United conseguiu a exclusividade das tiras de "Pelezinho".

"PELE"

As tiras que serão distribuídas diariamente em jornais levarão o nome de "Pelé", na forma da assi­natura que é caracteristica do jogador. Cerca de 50 jornais brasileiros terão o "Pelezinho" em suas páginas, de preferência dentro dos cadernos de Esporte de cada jornal; uma vez que o interesse será maior. 

A distribuição não se limita porém no campo nacional: de 30 a 40 paises terão as versões das his­tórias, como já é feito com "Horácio" no Japão e "Cebolinha" na Alemanha.

Com ajuda do próprio Pelé que envia regularmente passagens de sua infàn­cia, Mauricio de Souza pôde construir toda uma "família" para os quadri­nhos. "Sem a assessoria de Pelé, não conseguiria elaborar nem o conteúdo das tiras como hoje é, nem a descrição perfeita de detalhes de seus amigos", assegura Maurício. 

Pelé chegou a elaborar uma lista de brincadeiras de infância para melhor construir as situações: jogos de fute­bol; "canudo envenenado", jogo de pião, "estilingue", cabra-cega e outras típicas, que já fazem parte do folclore brasileiro. 

Pelé passou sua infância em Bauru, no interior paulista, e é desse cenário que Pelé escreve para Maurício: "As ruas de Bauru não tinham calçamento. Então um dia, um garoto falou que o pai dele tinha escutado na Prefeitura que iam calçar as ruas de Bauru. A primeira coisa a ser calçada, seriam as calçadas. Imediatamente a turma Pelé começou a pensar o que iria fazer com a nova rua. Então veio a ideia de fazermos os carrinhos de rolimã". E por aí vai a brincadeira que veio relacionada como "Carrinho de Rolimã", onde Pelé descreve até como conseguiram as peças e como se faz es­se brinquedo, enviando um esboço com desenhos, de como construir o carrinho. 

Fazendo parte dessa relação estão as festas de "São João": "Em quase todos os bairros soltavam balão. Nossa tur­minha com o "estilingue" furava o balão e aí ele não subia. Um dia le­vamos um castigo, porque estávamos escondidos atrás da árvore e lá tinha uma casa enorme com maribondos. Eles nos morderam e no dia seguin­te todos estávamos com o olho inchado, boca inchada. Com respeito a São João não é preciso falar, você sabe como são essas festas". (Esses trechos são ex­traídos de uma relação em que o próprio Pelé endereçou a Mauricio"). 

Por ser de caráter internacional o lançamento, Maurício considera que será de grande valia para a propa­gação da cultura e do folclore brasileiros para o mundo: "Uma das maiores preocupações de Pelé é a imagem que a cultura pode ter lá fora", afirma Maurício" - e ele fica muito chateado quando dizem certas coisas a seu res­peito, principalmente quando assinou contrato com o "Cosmos" de Nova Ior­que. 

OS PERSONAGENS 


Frangão; Teófilo, Cana Brava; Bon­ga; Rex, o cavador e Samira serão os primeiros da "turminha de Pelé" a en­trarem em ação. Para isso, foram feitas algumas subtrações dos per­sonagens inicialmente indicados por Pelé: "Como você pediu, aqui vão al­guns apelidos para serem selecionados para a estória Pelé", é o que escreve o jogador a Maurício de Sousa quando da elaboração dos personagens. 

A característica de cada tipo foi feita não somente pelo desenhista, mas pela ação conjunta de sua equipe for­mada por nove pessoas e mais o jo­gador. Essas caracteristicas podem ser atribuídas a qualquer menino do in­terior pela sua universalidade, que é também um dos pontos que Maurício pretende atingir para as histórias inter­nacionais. 

Com todos esses personagens, Maurício de Sousa pretende lançar até o final deste ano uma série de desenhos animados, não funcionando somente com publicidade, mas estórias curtas intercalando alguns programas para a televisão.